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-> (parte III)

por Mary P., em 06.09.14

Este é o dia que mais temia desde que me lembro ouvir falar sobre o Caminho de Santiago a partir do Porto. "Hoje" é o dia da Labruja!! A tão famosa subida da Labruja!! Aquela que de pé se dá com o nariz no chão. Aquela que se tem que subir de gatas. O troço, e estou a citar, mais árduo do Caminho!!

Na véspera, durante a espectacular conversa com o Sr. Ovídio, um dos voluntários do albergue de Ponte de Lima, alivei um bocado a tensão que estava a sentir. O Sr. Ovídio falou-nos no Caminho de São Salvador, onde trocava aquelas subidas por vinte Labrujas de marcha-atrás e mochila cheia de pedras. A Sara e a Sofia já não aguentavam-me ouvir perguntar às pessoas como é qie era a Labruja. 

O dia, como todos os outros os dias, começou cedo. Apesar de ter dormido pouco tinha sido um sono tranquilo. Estava bem disposta. É a Labruja que vamos ter que subir? Então venha ela!

Enquanto estava a arrumar a mochila nas escadas a Sophie diz-me: 

- Mary, nem imaginas quem é que está a fazer o Caminho connosco!

- Quem? Quem?

- O Johnny Depp!!

- O Johnny Depp?!

O meu coração estremeceu!! Ter o Johnny Depp a fazer o Caminho connosco era o melhor boost que poderia ter!!

Nos entretantos, "ele" passou. Sophie:

- Olha, Mary! É ele!!

 

Que desconsolo. Chamar-lhe Johnny Depp era uma falta de respeito para o meu menino, o the real one. Apenas os óculos e um bocadinho do cabelo é que se aproximavam do meu Johnny. Não cheguei a falar grande coisa com ele durante o Caminho, mas posso dizer que era um espanhol com uma sexy voz de rádio. Ficou para nós como o Pseudo-Beeeeeeeeeeeeem-Sublinhado-Johnny-Depp (sim, nós somos incríveis e damos nomes a toda a gente).

 

Depois daquele pseudo-boost de energia seguimos viagem. Mais uma vez não me lembro grande coisa do Caminho. Lembro-me de trilhos de pedra acompanhados de riachos. O verdadeiro Caminho de Santiago. Quando o Sol começou a nascer e desligámos as lanternas a cada subida que víamos ao longe pensávamos logo que aquela sim era a Labruja. Houve um corta-fogo que nos acompanhou durante imenso tempo e que me fez pensar uma série de vezes: Ó meu Deus, onde é que me vim meter? Mas como tinha dito a toda a gente que tinha até ao pôr-do-Sol para subir a Labruja era tranquilíssimo.

 

Todos nos diziam para recarregarmos energias no último café antes da Labruja. Fica ainda a uma boa meia hora, mas vale a pena tomar um café sentados na esplanada e conversar com o dono. O café chama-se Café Nunes. De rir, porque ao ler o carimbo li Café Mines. Nada a ver. Mas uma fresquinha até que sabia bem!

 

Até começarmos a entrar na Serra tivemos que subir e descer algum alcatrão. Há uma fonte de água numa rua coberta por videiras, que é perfeita para renovar a água do cantil.

 

Quando finalmente começámos a subir (eu ia à frente) ouvi:

- Então vocês de onde é que são?

Parei e à minha esquerda aproximou-se um pastor de cajado na mão seguido por uma Senhora Dona Vaca.

- Bom dia! Somos do Porto.

- Do Porto? Conheci lá uma sopeira... Maria Alice... Era boa, boa, boa.

[Nós risos e sem saber muito bem o que responder]
O Senhor J. lá se pôs a contar a sua história. Com pormenores e tudo. E eu à procura da melhor deixa para o homem nos deixar ir. Pediu para tirar uma fotografia comigo. Lá tive que lhe ensinar como é que se tiram fotografias à moda do Porto, que com a Maria Alice ele deve ter aprendido outras coisas.
(A Sophie foi corajosa e tirou uma fotografia com a vaca, que aqui aparece timidamente)
E depois da conversa engraçada com o Sr. J. e de feitas algumas piadas com a Maria Alice continuámos a subir e a subir até que deixámos de ter casas e terrenos trabalhados. Éramos só nós, terra batida, árvores e senhoras pedras (eu sei que são rochas, mas não me soa tão bem).
Subíamos um bocadinho... (É preciso ter muita atenção à sinalética, pois há uma curva à esquerda que só os mais atentos é que se apercebem da seta)
- Será que é isto a Labruja?
Mais um bocadinho...
- Não, não pode ter sido. 
- Deve ser mais daqui a um bocado.
Até que nos deparámos com esta imagem:
A inclinação da seta explica muito bem o cenário. Para os olhos mais atentos é fácil verem a minha traseira. 
- Ó Sara, bota lá o Bailando, que já chegou a hora!
Perdi a noção de tudo. Não faço ideia quanto tempo demorámos a subi-la. Naquele momento só queria vencer a Labruja. Sabia que existia uma alternativa, mais plana, mais tranquila, mas não seria a mesma coisa. Cada uma foi ao seu ritmo. Sempre ao som do Bailando e lembro-me de cantar com emoção a parte de "Ya no puedo mas". Houve uma vez em que me agarrei a um troco em jeitos de "vai tudo a eito". Respirámos fundo mais ou menos a meio onde tem um cruzeiro. Deixámos lá a nossa marca:
Chegámos ao topo. Mas eu ainda não estava em mim. Será que tinha sido aquela a subida da Labruja ou teria sido apenas um cheirinho para o que aí vinha? Com a Sophie aprendi a não criar grandes expectativas. Mas também olhando à nossa volta pouco ou nada havia mais para subir. Levei para aí uns dez minutos a fazer cair a moeda de que FONIXXXXXXXXXXX!!! A LABRUJA 'TÁ FEITA, MENINAS!!!!!!! Começámos a descer. Altura de comermos a banana. Bananas incrivelmente verdes. As pragas que as minhas sócias me roeram. Até a mim me custou. Mas pelo Magnésio tudo se faz! O resto do caminho foi feito com ligeireza!! O ponto de referência é que a partir do momento que se vê uma farmácia estamos a quinze minutos do albergue. Sim, nós optámos por ficar em Rubiães e só no dia a seguir ir para Valença.
Quando chegámos já tinham chegado peregrinos. Tomámos banho. O que levou uma eternidade, visto que só há dois chuveiros. No entanto, as instalações são muito boas. Trata-se de uma escola primária que foi renovada. Tem cozinha, sala de estar e um alpendre com espreguiçadeiras. Depois do almoço fomos perguntar ao senhor do albergue sítios para encher o bandulho. A cinco minutos existe um restaurante com menu de peregrino. Fomos lá, mas os preços e a oferta não nos cativaram e fomos à procura de alternativas. ÚNICA alternativa encontrada: café/mercearia que fica mais abaixo.
Seguimos. 3 semi-inválidas (já mostro fotografia da minha nail) de havaianas às duas da tarde em plena estrada nacional a caminho do café que tem uma mercearia que fica logo a seguir à ponte. 1 km. ANDÁMOS MAIS 1 km!! Obrigada, Sr. do café/mercearia, pela sua eterna paciência! Demorámos uma eternidade, mas também fomos boas clientes! Comprámos mantimentos para o almoço, jantar e pequeno-almoço.
Agora que tínhamos farnel a motivação para regressarmos ao albergue já era outra! O plano traçado era: a Sophie tratava do almoço enquanto eu tratava dos pés da Sara e depois enquanto a Sara arrumava a louça eu costurava mais um bocadinho os pés da Sophie. E assim foi!
Vejam só a delícia com que nos deliciámos ao almoço:
Não havia uma alminha que não passasse por nós e não tecesse comentários ao nosso manjar!
Depois de pés tratados e louça lavada foi hora da sesta e de pés ao alto. Foi difícil encontrar posição depois de ter esta visão:
(A Betadine e o Hirudoid fazem milagres. Se bem que agora está completamente preta. Mas antes isso, que sem unha!)
O jantar já foi mais leve, mas nem por isso menos divertido - sandes com barulho!! E depois da escrita em dia lá fomos dormir. Tratava-se da última noite em Portugal e no dia seguinte saía o jornal com a nossa entrevista (e a risota que foi quando vimos o jornal!)!
Próximo capítulo:
Bem que queria deixar aqui uma fotografia, mas não estou a conseguir, portantos, see you later aligator

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-> (parte II)

por Mary P., em 05.09.14

Ora vamos lá então escrever sobre a etapa mais fofinha, cutxi-cutxi do Caminho (NOT)

 

Para começar é a etapa mais comprida: 34 km. Todos a quem perguntávamos diziam-nos que era a mais bonita. A mim pareceu-me mais do mesmo. Alcatrão, terra batida, gravilha e milho. Cá para mim o alcatrão é que destoa, mas há troços que não dá de outra maneira. Por isso o que tem que ser, tem que ser!

Partimos por volta das 6h30, porque fiz questão de apenas almofadar os pés já cheios de linhas (os meus não!!) no dia da caminhada para evitar suores e ambientes propícios à reprodução de bactérias.

 

Aqui estávamos a atravessar a Ponte que une Barcelinhos a Barcelos.

No dia anterior, ainda quando estávamos a caminho fartámo-nos de ver caixas e caixinhas do McDonalds, o que despertou em nós uma grande vontade de atacar um Big Mac. Mas quando perguntámos aos locais de Barcelinhos se o McDonalds estava muito longe eles disseram-nos para não nos metermos nisso, que ainda era um bom pedaço,... Engolimos em seco. Não foi fácil. Mas, felizmente encontrámos o in_rio. A piada é que já no dia rumo a Ponte de Lima, ao sairmos da cidade, o que nos levou 10/15 minutos (se tanto) lá estava ele, o tão aclamado McDonalds! Mas foi uma boa decisão! Sem arrependimentos e de longe bastante mais saudável!

Andámos, andámos e andámooooooooooooooooooooooooos. Encontrámos a nossa rua:

 (A primeira de muitas, que a imaginação de vez em quando não dá para mais)

Confirmámos que no Caminho nada se perde, tudo se cria e se transforma

 

E é agora que entra mais um dado novo: as músicas do Caminho. A primeira a entrar para o Top 3 foi a do Jajão. "Era só jajão". Música que se encaixou perfeitamente quando descobrimos esta placa:

 

ATENÇÃO PEREGRINOS!!! ESTA PLACA É O MAIOR JAJÃO DO MUNDO E ARREDORES!! É 1 KM MUITO MAL MEDIDO!! Já antes tínhamos perguntado a umas senhoras que nos disseram que quando eram jovens e tinham pernas boas para andar em meia hora estavam em Ponte de Lima para ir às festas. Digam-me, minhas senhoras, qual é o vosso segredo!! Este foi o 1 km mais penoso, mais psicologicamente difícil de todo o caminho. Parámos aqui para beber água e parámos pela última vez no primeiro plátano que encontrámos. Olhámos para a nossa direita ao fundo para recuperar o fôlego. Um senhor que estava estacionado e que tinha a janela aberta riu-se da nossa triste figura e deu-nos algum alento. Caminhámos. Lá fomos em modo piloto automático atravessando a feirinha que estava montada na margem do Rio Lima à direita. Senti-me o verdadeiro burro de cargo que tem como banho a sua cenoura.

Nem quero imaginar a nossa figura rídicula no meio da ponte. De repente vimos um homem a tirar-nos fotografias. "A sério, senhor? Vamos ter chatices?". Dirigiu-se até nós e apresentou-se como jornalista do JN, que estava a escrever uma peça sobre o Caminho de Santiago. "Sara, fala tu!!!"

 

Prometeu-nos a primeira capa e a nossa melhor foto. Era simpático, é verdade, mas nenhuma das promessas foi cumprida!

O albergue é um edifício partilhado com o Museu do Brinquedo ao atravessar a ponte. Chegámos por volta das 14h, 14h30. E o albergue só abria às 15h/16h. Deu para beber uma água bem fresquinha e comer um geladex. Nos entretantos, na fila de espera eu, a Sophie e a Sara desintegramo-nos e eu fiquei para trás. Deu para ir conhecendo os peregrinos, que finalmente estávamos a conseguir reconhecer. 

O Sr. do Albergue é SIMPATIQUÍSSIMO. Aliás, todos os voluntários de Ponte de Lima são uns verdadeiros amores. Adorámos o albergue e as suas pessoas. Com excelentes condições, super bem localizado e organizado, pessoas espectaculares! 

Como estávamos a acomodar a meio da tarde decidmos ir tomar banho, tratar dos pés e só depois irmos ao Arroz de Sarrabulho.

Apanhei um dos sustos da minha vida! Para enganar a fome, que já era muita, comemos umas bolachas óptimas do Pingo Doce, as Apple Strudel, que têm uvas passas. A Maria Sofia, enquanto lhe rebentava mais uma bolha, queixou-se de mal-estar. Desvalorizei. Estávamos com fome, ter agulhas entre camadas da nossa pele não é a sensação mais agradável do mundo, o Arroz de Sarrabulho já estava a chamar por nós,... Mas a miúda de repente começou a ficar muito branca e desatou a correr para ir vomitar. Ficámos as duas sentadas nas escadas e pus-lhe o caixote do lixo à frente. Estava branca e com o pulso fraco. "Ó meu Deus, Sophie!" Vomitou. Vomitou e a minha veia de Enfermeira levou-me a observar o vómito. Tendo em conta que estamos a falar de conteúdo gástrico não posso contestar o cheiro. Mas havia uns raiozinhos vermelhos que estavam a mexer comigo. E a Sophie vomitou outra vez. A Sara veio ter connosco porque já estávamos a demorar muito tempo e eu subi para ir buscar toalhitas e um par de luvas. A Sophie já estava mais recomposta, mas continuava pálida e com o pulso fraco. E os raiozinhos vermelhos abundavam. Na minha cabeça tinha as palavras COÁGULOS, HEMORRAGIA INTERNA, 112, SOPHIE, FAZ ALGUMA COISA a negrito, sublinhado e a piscar. Tive que meter lá as mãos. Saquei os sacanas. Mas tinham um cheiro doce. Eram fios. Elas olhavam para mim a pensar "A Mary 'tá parva ou quê?". Confirmei. Eram uvas passas semi-digeridas. Fodasse. Fiquei bem mais leve. Só me lembro de olhar para a Sophie, virar-me para a parede e virem-me as lágrimas aos olhos. Quando é um dos nossos a estar na eminência do perigo é do caraças. Lá me gozaram. A Sophie lá se recompôs. Lá fomos à procura do melhor Arroz de Sarrabulho. Curiosamente nenhum restaurante tem menu de Peregrino que contemple o ex-libris da cidade. Ainda tentámos negociar, mas foi em vão. Já não sei quanto é que pagámos, mas sei que foi um preço justo. Eu não comi o arroz banhado de sangue, pedi antes uma tacinha com arroz branco. Estava uma delíciaaaaaaaaaaaaaaaaa. Acompanhado com os rojões, outra verdadeira obra de arte!

 

Como o albergue fechava às 22h foi jantar e ir tratar do pequeno-almoço (novamente chuladas). De notar que ao jantar tivemos o "prazer" de ouvir a conversa de um grupo de amigos na casa dos 40/50 anos todos eles licenciados, alguns mestres e dois ou três professores doutores no assunto: Pegrinação. A Professora Doutora dizia para toda Ponte de Lima ouvir: "Não me venham com coisas porque só vai a pé quem tem promessas para cumprir!" Ó Senhora, junte-se um dia a nós e vai perceber que a magia do Caminho pode muito bem passar pela conjugação de amizades de há séculos com amizades feitas durante o Caminho. Valeu porque o senhor que estava à minha frente era mesmo parecido com o vocalista dos Red Hot Chili Peppers, o Anthony Kiedis.

Tirámos mais uns retratos para a posterioridade:

 

Ponte de Lima é realmente muito bonita!

E a noite foi longa! Foi a primeira noite que conversei com os nossos queridos Salvatore & Valentina, um casal espectacular napolitano. Foi noite de massagens. E foi noite de véspera da Labruja!!!!!

 

Próximo episódio:

 

A caminho da Labruja...

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-> (parte I)

por Mary P., em 04.09.14

Se há coisa em que eu e os meus amigos somos bons é preparar coisas em cima do joelho. É uma lufa-lufa. Bradamos aos céus "Mas porque raio é que somos assim?". Mas quando nos fazemos ao caminho não teria tido a mesma piada se não tivesse sido assim! A verdade é que em três dias preparámos a nossa ida da Sé do Porto até Santiago. Duzentos e quarenta quilómetros. Dez dias a andar. 

Já tinha ido a Santiago três vezes, mas sempre partindo de Valença - cinco dias a andar tranquilamente. Nunca dez dias!!!!! "Mas, Mary, tu és escuteira!" É verdade. Fazer a mochila foi a verdadeira dor de cabeça. Levo muito a sério a história do "Mulher prevenida vale por duas!". Facto que as minhas costas não acham muita piada. Achava eu que levava o mínimo dos mínimos, mas já na primeira etapa estava bastante tentada em ir aos Correios e despachar metade da bagagem. (Em jeitos de Não percam o próximo episódio porque eu também não amanhã dedicarei um post à mochila).

 

O plano era:

 

Dia 19 - ponto de encontro em Miragaia Village na casa da avó da Sarocas;

Dia 20 - partida às 9h da manhã na Sé, chegada a Vilarinho;

Dia 21 - Vilarinho -> Barcelos;

Dia 22 - Barcelos -> Ponte de Lima;

Dia 23 - Ponte de Lima -> Rubiães;

Dia 24 - Rubiães -> Valença/Tui;

Dia 25 - Valença/Tui -> Redondela;

Dia 26 - Redondela -> Pontevedra;

Dia 27 - Pontevedra -> Caldas de Reis;

Dia 28 - Caldas de Reis -> Padrón;

Dia 29 - Padrón -> Santiago;

Dia 30 - DESBUNDATION

 

Dias alinhavados, mochilas idealizadas e feitas chegou dia 19 e às 21h45 a Sara e o Ricky (irmão da Sara e World Champion!!) estavam à minha espera. Ía-mos buscar a Sophie à Sra. da Hora para depois irmos todas juntas para casa da avó da Sara Maria. E aqui tive a minha primeira surpresa! A Rits veio ter connosco para fazer a primeira etapa!! De notar que a Rits e a Sophie são as minhas meninas. Crescemos juntas. E este foi o primeiro ano de há muitos em que ainda não tínhamos estado juntas. Sim, pelas contas, apenas estávamos três. Há quatro anos éramos dez. Mas desta vez as Pilgrins eram as SIS's - Sara, Mary P. e Sophie. Fomos tomar um café a uma feira que estava na Alfândega, demos uma voltinha pela Ribeira. Deu para matar saudades!! 

Começámos o primeiro dia da nossa longa jornada da melhor maneira com o pequeno-almoço preparado pela Avó da Sara. Que maravilha! 

Logo o início foi uma prova à nossa fibra. A casa da avó da Sara ficava a caminho do caminho, mas se era para começar na Sé, é para começar na Sé!

 

 A partir deste momento foi sempre a Rits a tirar as fotografias!

 

Foto oficial das que mais tarde se auto-intitularam Che Tortugas Telepáticas

 

Dirigimo-nos para a Rua Escura. Olhei em frente e contemplei o Rio Douro. Fotografei com os meus olhos aquele postal e pensei para mim mesma: "O Porto é lindoooooooooooooooooooooooo". Descemos e passámos pela Rua das Flores. Aqui é a primeira escolha que fazemos:

 

É aqui que tem que virar quem quer fazer o Caminho Português (não confundir com o da Costa!)

 

A primeira etapa foi particular. Todas conhecíamos bem as ruas pelas quais passámos. Todas, menos a Sara, passámos pelas nossas casas. Imensas pessoas conhecidas. Aliás tivemos três paragens de carros! Um deles foi a Rits, que depois de ter chegado a casa e dormido veio ter connosco em modo carro de apoio com águas bem fresquinhas e barras de cereais à janela. 

Chegámos a Vairão. Podíamos ter ficado em Vilarinho, que fica a 1/2 km depois (este post não tem nada de científico!), mas é privado e eu e a Sofia já lá tínhamos ido acantonar e sabíamos que se estava lá bem.

 

Vilarinho: É um albergue recente. Trata-se de um Mosteiro que foi recuperado por voluntários. Quartos de três/quatro camas. Senhores super simpáticos. Boas condições sanitárias. Bastante hospitaleiro. Amei as compotas que lá tinham. Pátio bastante agradável. Jantámos no café mais próximos. Comemos um prego-no-pão, que nada tinha de especial. Esse café tem também uma espécie de mercearia. Fomos chuladas, mas o nosso espírito de "Epa, isto está mesmo a acontecer!" não nos deixou desanimar. Deu para comprarmos aí um leite achocolatado e pão, que complementámos com as compotas óptimas deixadas na sala comum do albergue. Ainda não tínhamos feito nenhuma bolha. Foi dia de massagens e tratamentos de beleza.

 

Está no nosso ADN acordarmos cedo e começarmos a andar ainda de madrugada para garantirmos o lugar no albergue seguinte, podermos dormir uma sesta enquanto esperamos que abram o albergue e depois ganharmos o dia e podermos passear durante a tarde.

 

Aqui está a prova de como acordamos cedo (5h da manhã):

 O nosso nível cognitivo logo de manhã:

 

Levávamos a vantagem de a Sara já ter feito a primeira etapa completa e conhecer o caminho. Como o Sol ainda não tinha nascido fizemos um ligeiro desvio. Em vez de termos entrado no bosque, que está cheio de preservativos e pessoas completamente aleatórias, fomos pela estrada nacional. O ponto de referência que tínhamos era esta estátua:

 

Tínhamos voltado ao caminho e curiosamente tínhamos que continuar na estrada nacional! 

 

Passámos por Rates. Mas por ainda ser cedo estava tudo fechado e não deu para conhecer a dinâmica da vila de que todos falam tão bem.

Sinceramente já não me recordo bem. Aliás, não se de todo a pessoa ideal, porque já fiz três vezes o caminho a partir de Valença e há sempre troços que parece que estou a fazer pela primeira vez (memória de abécula!). 

Lembro-me que a meio do caminho parámos para ir à casa-de-banho e enquanto estava a tomar conta das mochilas um Sr. veio ter comigo e perguntou se podia pegar nas mochilas. Fiquei com cara de ponto de interrogação.

- Pegue lá Sr.! Quer levar esta? (apontei para a minha) É um favor que me faz!

- O que é que vocês levam aqui? Só esta é que está bem (a da Sara, que levava roupa ultraleve).

- Mas o Sr. já fez o caminho de Santiago? 

Entretanto, juntou-se a nós um amigo.

- Este já fez o caminho francês. Com ele fiz desde o Porto. Mas eu é mais hóteis. Não gosto de ficar em albergues. Férias são férias.

- E a Labruja faz-se bem? (O fantasma da Labruja acompanhou-me noite e dia, mas sobre isso falarei mais tarde).

- A Labruja? O segredo é parar no café que tem antes e beber umas "mines".

Já deu para tirar a pinta?

- E para Barcelos falta muito, Sr.?

- Uma horita! Fiquem antes em Barcelinhos, que assim é só atravessar a ponte e estão no centro da cidade.

- Vá, obrigada. Felicidades!

- Bom caminho!

 

E aceitámos a sugestão do Sr. Mas não foi uma hora. Aliás, passado uma hora perguntei a uma senhora quanto tempo faltava para Barcelinhos e a conversa foi assim:

- Bom dia, menina! Falta muito para Barcelinhos?
- Nããão! Daqui a meia hora, uma hora estão lá! Ali na Igreja os estrangeiros costumam virar, mas eles não sabem que se forem sempre em frente demoram menos dez minutos.

 

Deu para secar a roupa...

 

A Sra. referia-se ao caminho. Epa. Nós que da Rua das Flores fomos à Sé para voltar a passar outra vez fomos teimosas e não fizemos desvio nenhum. Mais uma hora em cima. Valeu a pena. Fomos as primeiras a chegar. Mais menos 27 km até Santiago! Albergue pequenino. Com um pátio decorado. Estávamos rodeadas pela Junta de Freguesia e pela a Associação do Rancho Folclórico. Fomos almoçar ao in_rio. Nota 20! Fomos fora de horas e tivemos oportunidade de comer lombelo assado com uma vista soberba!!!


De banho tomado, bandulho cheio, cadê o galo?

Segundo dia, primeiro dia de rebentamento de bolhas!

Somos miúdas muito tradicionais e se levamos à letra "Mulher prevenida vale por dois", mais ainda "Pequeno-almoço de rei, almoço de príncipe e jantar de pobre"

 

O Pingo Doce está a 5 minutos do albergue. Os bombeiros, que são mesmo ao lado do albergue, servem refeições completas a 5€, mas como tínhamos almoçado tão bem fomos para as sandes.

 

Amanhã: Barcelinhos -> Ponte de Lima

 

Ponte que liga Barcelinhos a Barcelos

 

To be continued ;)

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