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de coração partido

por Mary P., em 29.04.15

É de coração partido que vou ficar se este projecto avançar - A VANDOMA SER DESLOCALIZADA

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 A ser aprovada que emoção terá encontrarmo-nos na sexta à noite no Piolho, irmos dançar para o Galerias, Rádio,... e os rapazes a dizerem:

- Vamos miúdas! Temos de ir! Se nos atrasarmos depois não temos lugar e os carros estão cheios!

E lá vamos nós. Encontrar lugar em São Lázaro. Distribuirmos entre todos a mercadoria (da boa!) e descermos. Descermos tudo aquilo que teremos que subir e descer vezes sem conta durante o dia. Que emoção terá a arte que tivemos que desenvolver durante anos e anos para conseguirmos equilibrar a mercadoria (da boa!) em exposição? Que emoção terá as nossas pseudo-escorregadelas? Pior: QUE EMOÇÃO TERÁ ACOMPANHAR O NASCER DO DIA NUMA RUA PLANA QUALQUER SEM O RIO DOURO, AS PONTES E GAIA DO OUTRO LADO? Que emoção terá não poder ir de manhã à casa-de-banho do Café do Sr. Manuel e dar duas de letra com ele? 

E a emoção que foi a primeira vez que fomos e darmos com as Fontainhas e perceber onde é que podíamos ou não ficar! (Nesse dia éramos verdadeiros extraterrestres. Mas depois era de abraço com os nossos vizinhos!)

Na Vandoma fui genuinamente feliz! Na Vandoma um "cliente" deu-me um livro todo o xpto sobre o corpo humano quando lhe expliquei que estava a estudar Enfermagem e que tinha adorado Anatomia. Na Vandoma aprimorei as minhas técnicas de comunicação. Mary Poppins, a Relações Pública do nosso estaminé. Na Vandoma vendi uma impressora, que sabia que não estava nas melhores condições, a um médico do Saint John, com quem tomei o célebre café das 7h30 este ano - e só me passava pela cabeça: "Conto/Não conto? Pergunto pela impressora/Não pergunto?", mas decidi não arriscar e ouvir atentamente o que ele tinha para contar. Na Vandoma aprofundei amizades. Na Vandoma fiz amizades. 

Éramos dos primeiros a chegar e dos últimos a sair. A partir das 11h30 era a Happy Hour e por vezes era quando se faziam os melhores negócios.

Na Vandoma falei em Português, Espanhol e Inglês. Ousei no Francês e cantei em Espanhol perante possíveis clientes Italianos. A Vandoma já se tornou num ponto turístico. Sem margem para dúvidas.

Quem vai para a Vandoma à partida já sabe com o que contar. Como tudo na vida tem coisas boas, muito boas, menos boas e más. O que é preciso é bom-senso e discernimento. Não penso que é por se mudar de sítio que o ambiente, tanto o positivo como o negativo, irá mudar. 

Agora será muito difícil bater o encanto das Fontainhas!

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 (um dos muitos dos nossos estaminés)

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-> (parte VI)

por Mary P., em 27.04.15

Se existir o título de pior blogger esse título é meu! É que desta vez o meu silêncio deveu-se pura e simplesmente à falta de vontade em escrever aqui. Inércia. É definitivamente a palavra-chave.

Mas o bichinho voltou porque este fim-de-semana tive a sorte de poder conhecer novas pessoas. Novas formas de viver a vida. E que partilham comigo um sentimento: o-amor-aos-caminhos-de-santiago. Partilhei com alguns as minhas, nossas histórias de quatro anos de caminho e lembrei-me que como pior-blogger-de-sempre-que-sou ainda não acabei o meu relato sobre os Caminhos de Santiago, nomeadamente a minha viagem do ano passado. 

E com alguma nostalgia, bastante saudade e com um sorriso de orelha-a-orelha aqui vai o relato do dia que partimos de Redondela rumo a Pontevedra.

Tivemos o prazer de contar com a Maga mais uma vez. Saímos por volta das 6h/6h30. A memória mais viva que tenho deste dia é que CHOVIA A CÂNTAROS. E estamos a falar de Verão em pleno Agosto. Mas trata-se da Galicia. Já todos sabemos para o que vamos!

O caminho faz-se bastante bem! Poucas subidas, poucas descidas. Acho que é nesta etapa que ainda no início da etapa que tem uma rua com uma ligeira inclinação. Mas é possível parar a meio e do lado direito tem um fontanário com água bem fresquinha! Acho também que é nesta etapa que há cinco anos eu e a outra Maria Inês apanhámos um susto de morte quando ainda de madrugada com a luz do luar nos cruzámos com o senhor idoso de pedra que está sentado pacientemente às portas do cemitério. Quase que morríamos!

Continuou a chover a cântaros. Mesmo antes de chegarmos em Pontesampayo decidimos entrar num café com muito bom ar que tinha acabado de abrir àquelas horas da madrugada. Tomámos el desayuno e exercemos tentativas de secagem com o secador das mãos da casa-de-banho. Tivemos a oportunidade de desayunar com a Francesca - uma italiana quarentona, super fit, que faz dos Caminhos de Santiago a sua vida. A Francesca e a sua história de vida são incríveis. Fez todas as etapas sozinha, porque assim o queria. Mas quando nos encontrávamos nos albegues - era sempre uma das primeiras a chegar - a animação estava garantida!

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(esta fotografia não tem efeitos. estava, estávamos ensopadíssimas.)

Aliviadas e com mais energia seguimos até Pontesampayo, um dos meus sítios preferidos.

Aqui ainda sem atravessar a ponte já sentíamos o cheiro a pão com chouriço da chaminé da padaria imediatamente a seguir à ponte, mas como tínhamos acabado de comer deixámos a gulodice e curtimos as ruas e ruelas de Pontesampayo, a aldeia grega semeada na Galicia.

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(aqui com a Maga a cruzar a ponte)

Neste dia a Sophie e a Sarocas ligaram o turbo e seguiram sempre. Eu fiquei para trás com a Maga deliciada a ouvir as histórias dela no seu hospital em Madrid. Encontrámo-nos as quatro já na periferia de Pontevedra e fomos, como malucas, a cantar e assim chegámos ao Albergue, onde todos os anos perco/esqueço-me de uma coisa que trago comigo.

Quando chegámos já lá estavam o Titi, o Blogger, as espanholas, o Sergi e a Francesca. Mais uma novidade neste ano! Com a chuva que caía não era possível esticar o lombo à porta do albergue enquanto os antipáticos voluntários não abriam as portas. Deixámos antes as mochilas na fila e fomos para a esplanada do primeiro café em frente tomar café e javardar mais um bocadinho. E a festa que foi quando vimos o David e o Gabriel a chegarem! 

Calámo-nos quando nos deparámos com este quadro:

 (tristemente não estou a conseguir colocar a fotografia - já tentei mil e uma maneiras, só me falta fazer o pino com a mão esquerda. Recorrerei, portanto, às palavras para descrever o momento: Pai e filho - menos de seis anos. O pai levava o filho num carrinho do tipo carrinho de compras, só que quitado. Pai e filho a fazerem o Caminho. Cada um à sua maneira. O pai demonstrando a sua força e garra. O filho a ser paciente e a portar-se lindamente aguentando muito bem todos os solavancos a que estava sujeito. Infelizmente só nos voltamos a cruzar em Santiago e foi muito ao de longe. Só deu mesmo para esticar a mão e dizer adeus)

Depois de termos entrado e de nos termos apercebido que os alberguistas mais antipáticos de todo o Caminho continuam em Pontevedra fomos tomar banho. Acabámos por almoçar no café em frente. Escolhemos o menu de peregrino. Não era nada de especial. Regressámos à base e já não me lembro muito bem como nem porquê combinámos um jantar napolitano com os nossos queridos Valentina&Salvatore. O plano era o seguinte:

Valentina&Salvatore -> fazer a lista de ingredientes e cozinhar

Mary, Sophie e Sarocs -> comprar ingredientes e coordenar a equipa de lavagem de loiça

David&Gabriel -> lavar a louça

Entretanto, cruzámo-nos com o David que estava cheio de estilo, que tão bem lhe fica, a demolhar os pés numa argila toda xpto oriunda do Rio Nilo. Neste albergue, apesar dos voluntários serem uns ranhosos do pior - faço mesmo questão de repetir isto, porque há quatro anos que eles estão sempre com cara de frete e que em tempos fizeram com que pedíssemos o livrinho e mais! o homem deitou ao lixo uma das minhas tshirts favoritas do Caminho, uns calções, umas cuecas e um soutien! - o português completamente apanhado do clima que faz reiki e trata dos pés é um amor e é impossível não nos rirmos com ele. No final da noite fiquei eu e o David a falar com ele e tendo sido avisada mais que uma vez que seria degulada se me voltasse a rir tão alto mais uma vez, visto que já estavam todos a dormir. Mas com aqueles dois era impossível!

Comprados os ingredientes - Pontevedra está muito bem servida neste ponto! O Albergue fica mais ou menos a 10 minutos no centro. Tem supermercados, tem farmácias e tem uma Caixa Geral de Depósitos. É obrigatório ir à igreja com forma de vieira que fica mesmo no centro. E à frente do Burger King.

Estava na hora da janta. Aprendam:

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É UM CRIME PARTIR O ESPARGUETE NA HORA DE O PÔR NA ÁGUA A FERVER!

OREGÃOS VÃO SUPER BEM COM MOLHO DE TOMATE!

Ó pra nós aqui todos felizes e contentes:

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 Depois de coordenar os rapazes e de ter tratado dos pés das minhas meninas, do Gabriel e do David foi como vos escrevi: toda a gente foi dormir e eu e o David ficámos a rir com o maluco do português!

Antes disso, mas muito importante: Foi aqui que estabelecemos contacto pela primeira vez com o Titi! Um taiundês - não sei se é assim que se escreve, mas ele é de Taiwan. Logo aqui ele provou não resistir ao nosso charme ofereceu a cada uma de nós um postal com uma fotografia de peixes e porcelanas e escreveu o nosso nome na sua língua. Mas tem mais piada falar sobre ele na próxima etapa.

E assim fica o mistério! Não percam o próximo episódio, porque eu também não!

 

 

 

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o valor somos nós que damos

por Mary P., em 11.02.15

O meu cérebro está a borbulhar, não no sentido literal obviamente. Borbulhar no sentido de ter quinhentas mil ideias para o post a iniciar este novo caminho.

 

Não me desliguei do blog. Todos os dias houve qualquer coisa, li, ouvi, reflecti sobre algo que pensei: "isto dava um bom tema para um post". Mas o mês de Janeiro foi simplesmente caótico - física e mentalmente. Já vivi 21 meses de Janeiro. Este, o de 2015, foi sem sombra de dúvida, o que mais custou a passar. Nunca a frase "parece que nunca mais acaba" fez tanto sentido.

 

Passo a explicar: entre os meses de Setembro e 1/2 Fevereiro estive no Hospital São João a estagiar - Medicina e Cirurgia. Cirurgia foi assim uma coisa de coração. Adorei, adorei, adorei. Adorei os orientadores, adorei a equipa de Enfermagem, adorei a equipa Médica e as auxiliares, adorei as instalações. ADOREI A MÍSTICA DO SERVIÇO. A última semana foi horrorosa. Não queria que os dias acabassem. Todos os dias me levantava cheia de vontade para ir para o Hospital e aprender mais "umas coisinhas". Todos os dias no final do turno olhava para trás (não necessariamente) e pensava "Epa ... é mesmo disto que eu gosto!". Aqui disseram-me: "Inês, tens tudo para ser uma óptima Enfermeira. Sabes, procuras saber mais, és organizada, sabes falar com os utentes. Não te percas." e deram-me o melhor elogio de sempre no dia da Avaliação Final (Enfermeiros Orientadores pelos quais eu tenho o maior respeito): "Um dia se for por hospital é por Enfermeiras como tu, Inês, que eu quero ser atendido." Tocou-me. Sorri apenas. Mas tocou-me, confesso. Simultaneamente desvalorizei porque sabia que tinha pela frente um estágio que é tido como duro. Poucos são os que gostam de Medicina. A verdade é que nos últimos tempos já me sentia completamente integrada no serviço. Porque tinham-me dado espaço para ser eu, a Inês. Tive oportunidade de me mostrar, o que fez com que me conhecesse melhor. Descobri/adquiri características em mim. Aproveitei a oportunidade e fiz por mostrar que tinha sido bem empregue. Mil obrigadas do fundo coração, Professor Alex e Professora Alice.

Já nos finais de 2014 mudei para Medicina. Desci um piso. Tudo diferente. Orientadoras, Equipa Multidisciplinar, instalações. Ambiente do serviço. Sofri horrores - tristemente é mesmo este o termo correcto. A partir daqui podia levar este parágrafo para vários temas: a bipolaridade, tudo o que um Orientador não deve ser/dizer/fazer, a frustração, a linha ténue entre o respeito pela autoridade e a desvalorização de hierarquias justificada, a autoridade só porque sim,... Abreviando, neste estágio a Inês na sua essência foi reprimida. Não teve espaço. Aliás, retiraram-lhe espaço. Logo na primeira semana lhe disseram que estava para a Enfermagem como o chocolate está para o azeite, ou seja, nada a ver. Não foi um murro no estômago. Foi um atropelamento por trinta camiões-tir repetido quinhentas e cinquenta mil vezes. Respondi: "Professora, acontece que no lugar do coração não tenho uma pedra." E a partir desse momento o meu caminho foi dificultado. 

 

Continuando no espírito de abreviar cheguei a casa e chorei. Chorei porque achava que tinha feito um bom trabalho. E uma senhora que não me conhecia de lado nenhum ao final de três dias me pergunta se eu tenho consciência de que estou no 3º ano de Enfermagem e não de Psicologia e que na sua ironia me mandou ir para casa rever a definição de Relação Terapêutica. Conceito este que me tinha sido valorizado pelos orientadores por quem merecem toda a minha consideração, porque eles sim me mostraram TODOS OS DIAS a imagem e a postura que eu quero adoptar - admirava-os e pensava para mim: "Quando for grande quero e vou ser assim." Tudo isto porque a minha utente começou a chorar quando lhe desejei bom fim-de-semana e lhe disse que só voltava na 3ªfeira. Acontece que era uma utente de 80 anos, de Amarante, solteira. Recebia a visita do sobrinho 2xsemana quando via as suas "vizinhas" sempre com gente aos pés da cama. Obviamente que lhe dei uma atenção especial. E se houve pessoa com quem eu senti que construí uma Relação Terapêutica - conceito que tanta gente se queixa sobre a sua ausência nos hospitais portugueses nos dias de hoje - foi com a D. V.. Fui quem lhe explicou a importância para a sua saúde fazer pesquisas de glicemia 4xdia - "Ó Enfermeira, já não chega as picas de ontem? Olhe bem para os meus dedos. Vá tratar a dali do lado!" -, era eu quem ela deixava dar banho e avaliar a tensão arterial. Foi a mim que a D. V., desconfiada de tudo e de todos,  respondeu às perguntas permitindo construir uma boa Avaliação Inicial. Foi comigo que a D. V. aprendeu a falar devagar e a ganhar confiança e à-vontade para ser ela mesma - uma senhora super amorosa, com a piada na ponta da língua e que toda a gente naquela Enfermaria era incapaz de sair sem lhe dar uma palavrinha - deixando cair a protecção de "eu não preciso de estar aqui. Deixe-me em paz. Eu quero é ficar sozinha. Ninguém me entende." 

 

Seguindo a minha essência e a minha aptidão inata de divagar e divagar demorei bastante tempo a decidir que título iria dar a este post. E penso que "o valor somos nós que damos" acenta que nem uma luva. Porque se quando fui elogiada desvalorizei e fiz por não pensar muito no assunto, quando o meu carácter e aptidão - técnica e social - foram postos em causa levei a peito e deixei-me afectar. Muito. Agora que já passou se calhar tería desvalorizado completamente. Mas o que está feito, feito está. 

 

Com isto quero dizer que é importante, essencial mesmo, darmos ouvidos a quem percebe realmente sobre o assunto. E compartimentalizar. Guardar as informações em caixas, caixotes e caixinhas conforme a sua importância/veracidade usando em simultâneo um coador onde só passa aquilo que contribuirá realmente para o nosso desenvolvimento.

 

Termino este post com uma frase que eu gosto muito e que me toca particularmente acompanho-me todos os dias:

 

"Põe tudo o que és na mais pequena coisa que faças."

Ricardo Reis, meu querido e eterno Nando, Nandinho

 

Não te minimizes. Não te acanhes. Observa. Vê. Ouve. Escuta e retém. Valoriza e valoriza-te. Retoca. Entrega-te de coração.

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mudar de ares

por Mary P., em 24.11.14

Nada como começar um dia festivo com introdução a um novo ensino clínico e a despedida de 7cm de cabelo!

Quem muda Deus ajuda!

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-> (parte V)

por Mary P., em 16.11.14

Tui -> Redondela, uns livros dizem 29km outros 30km. O que importa é que a partir de Espanha este parece-me ser o dia mais "pesado".

A novidade é, como já tinha escrito, já não se fazer a recta de Porriño. Muitos se queixavam pelo longo passeio de alcatrão. Eu até gostava. Divirtia-me com os camionistas. Caaaaaaaaaaaaaaaalmaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. Diversão no sentido de lhes  pedir que apitassem. A verdade é que odeio caminhar em alcatrão seja de dia, seja de noite, com muito calor ou muito frio. Daí encontrar alguma coisa para me distrair. Em relação à alternativa é alcatrão na mesma, com muitas curvas e contra-curvas e bosque pelo meio. Fez-se.

Acontecimentos durante El Camino:

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Incrível! Em sentido contrário a nós encontrámos este Japonês que estava a fazer o caminho DESCALÇO e nos cumprimentou com um efusivo e quente ALELUIA :) Nesta altura já estávamos a desfalecer e o seu ALELUIA :) + o seu espírito de sacrifício encarado com leveza e sorriso na cara foi um boost de energia para nós.

A chuva estava a ameaçar e houve quem optasse por ficar em Mós. Nós fomos valentonas, enchemos o peito de ar e subimos a famosa Rúa dos Cavaleiros (se a memória não me falha). Mas não o fizemos sem antes deixarmos também o nosso boost para os nossos queridos Valentina & Salvatore:

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 Durante esta etapa tirei a minha melhor fotografia. Olhando para ela agora sei que podia ter feito um enquadramento muito melhor, mas continuo a gostar muito dela:

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 Penso ter sido nesta etapa que encontrámos um Gipsy Guy com um sotaque bastante nortenho que entre o cacete, o fiambre e o queijo que metia desenfriadamente à boca nos disse ser de Braga. Um Gipsy Guy solitário que faz da vida as Rotas até Santiago. 

Nos entretantos, deparamo-nos com este bonito quadro:

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Eu e o meu Amor 

 

A nossa primeira meta neste dia, que contámos com a companhia da Maga, a médica peruana a trabalhar em Madrid (mi Maga), era tomar o pequeno-almoço em Porriño e depois finalmente Redondela (atenção que o último troço é violento porque é sempre a descer em curvas-contra-curvas).

E finalmente chegámos a Redondela! INÉDITO!! Chegámos por volta das 14h/15h. E o albergue já estava lleno. Alternativas? Perguntámos nós à voluntária. Irmos até à polícia e tentar a nossa sorte para nos abrirem o pavilhão. Cheias de fome. Lá fomos até à esquadra que se distancia bastante do centro da cidade. Polícia do mais mal-educado que pode haver, prepotente. Só lhe faltou insultar-nos. Basicamente chamou-nos de estúpidas porque era ridículo virmos de Tui. Devíamos de ter ficado em Porriño. Já éramos todas crescidas e a nossa atitude era ridicula. Desculpe Senhor? Mas o Sr. tem alguma coisa haver ser por acaso eu quiser fazer Porto - Santiago num dia? Foi o Sr. que estava a abastecer a máquina de snacks que nos indicou um albergue privado no centro da cidade para onde os peregrinos costumam ir em alternativa ao público. Lá fomos nós. Curiosamente no albergue estavam todos que tinham partido connosco. Acontece que quem parte de Porriño como tem menos caminho para fazer, mesmo que saia pouco mais tarde de quem parte de Tui chega mais rápido a Redondela (um dos albergues mais bonitos do Caminho). E pronto. Mais uma novidade. Estadia num albergue privado. Com pouco quartos e apenas duas casas-de-banho. Foi aqui que conhecemos o nosso David e o nosso Gabriel, um português e um São Paulista (será assim?) de Aveiro. Ainda hoje nos rimos com valentes gargalhadas com o modo de como nos conhecemos. Agora que escrevo acho que foi um almoço/lanche/jantar porque estávamos bastante atrasadas. Sim, porque mesmo depois de termos chegado tarde ainda ficámos prisioneiras durante uma hora num dos quartos do tal albergue. O dia acabou com um Valentina, Salvatore ecoados por todas as ruas de Redondela, pois os nossos amigos italianos ainda chegaram mais tarde do que nós e nem no tal albergue conseguiram guarida. Foi o dono da Hamburgueria onde estávamos a almoçar/lanchar/jantar nos deu o contacto de um piso para arrendar e eles já tinham partido. Foi um momento bonito! Terminámos com eles a jantar, nós a experimentarmos una Clara con Limón (é boooom) e depois quando chegámos al Albergue encontrámos os nossos amigos portugueses e treinei a minha arte nos fantásticos pés do Gabrieu.

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Obviamente que não podíamos deixar Redondela sem antes irmos ao café do centro, no largo do Albergue, cumprimentar o simpático dono do café do Pingrino. Vejam lá como este mundo é pequenino! O Sr. é amigo de um amigo que a Sophie e a Sarocas fizeram quando fizeram o caminho primitivo. E esse tal amigo também já tinha feito o caminho com o meu pai. O Super Mário, como é assim conhecido, ferrenho portista deu esta belíssima garraja que enaltece o café do selo mais bonito de todo o caminho. Este foi o nosso registo:

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 Ficam alguns registos:

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-> (continuação da parte IV)

por Mary P., em 16.11.14

Como estava eu entusiasticamente a escrever a opção que a Sra. nos tinha arranjado para colmatar a inexistência de ensaladilla foi esta:

 

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Ohhh Pronto, vale, vale. 

Que chatice não haver mais ensaladilla!

Melhor restaurante de sempre!! Infelizmente não me lembro do nome, mas o ponto de referência é a Catedral. De frente para a igreja é à direita no fundo da rua. E como o bom filho à casa torna ao jantar lá voltámos. Novamente: MELHOR DECISÃO DE SEMPRE. Veja-se:

 

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 Portugal, Peru, Itália e Alemanha sentados à mesa. Um dos melhores jantares de sempre! Um Grande VIVA AO CAMINHO DE SANTIAGO que proporciona estes acontecimentos!! Daqui fizemos os nossos melhores amigos: Maga, Valentina & Salvatore, Angel, Folkan e Thomas <3

 

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Viva à língua alemã!!

E depois de um jantar bem animado, amizades feitas era hora de lavar os dentes, dizer um último adeus a Portugal que no dia a seguir tínhamos Redondela à nossa espera e mais umas novidades pelo caminho!

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(nota: depois de 3 caminhos feitos e da Labruja subida a subidazeca de Mós não me atormentou!)

 

To be continued...

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-> (parte IV)

por Mary P., em 16.11.14

Acaba por ter a sua graça completar o assunto: Best Summer Trip Ever agora. Até porque provoca uma contracção involuntária nos meus músculos faciais levando-me a rir ao mesmo tempo que a nuvem da Nostalgia se instale sobre mim. Permitam-me fazer isto devagar, devagarinho para saborear com calma a recordação de cada momento passado.

Ía-mos portanto para a última noite em Portugal. Ou melhor, a última noite no jardim plantado à beira mar acabou mesmo por ser em Rubiães. Passo a explicar: chegámos bastante cedo a Valença. Bastante, não é bem assim. Saímos por volta das 7h00 e chegámos às 11h30/12h00. E o albergue ainda estava fechado. Mesmo estando cansadas e cheias de calor a pedir um chuveiro pensámos: "Já que teríamos que esperar porque não seguimos para Tui? Eu e a Sarocas já lá tínhamos ficado há dois anos. O albergue é super acolhedor, o sítio mesmo giro e era relativamente perto (relativamente, uma vez que o caminho que tínhamos feito tinha sido sempre a descer o que deixou as nossas rodillas uma lástima). E pronto! Foi cruzar o forte, a ponte, dizer Hola Cariño e finalmente já estávamos em Espanha. Para nós as três, leia-se Veteranas do Caminho, era uma sensação estranha porque apesar de já termos um bom número de km's nas pernas parecia que agora é que estávamos a começar. Sim, porque aqueles dias todos levámos a fazer o que tínhamos feito em anos anteriores de comboio. Daí ser uma sensação bastante estranha! Como escrevi antes de Rubiães a Valença é praticamente sempre a descer. Mas nem por isso é mais fácil. É preciso ter muita atenção à posição das pernas porque os joelhos são quem sai mais prejudicados. Nos entretantos, nessa manhã tínhamos uma motivação extra!! Era a manhã em que saía a nossa notícia!! Mal encontrámos o primeiro café aberto abancámos logo para vermos o JN. Aconteceu em São Bento da Porta Aberta. Quase que nos dava uma coisinha má! Conhecíamos o São Bento do Gerês que contava com imensas e compridas subidas pela frente e àquela hora da manhã os nossos conhecimentos geográficos ainda não estavam a 100%, mas rapidamente a dona do café, uma senhor super simpática, nos esclareceu e nos acalmou. Tudo o que ela nos disse se confirmava: "Até Valença é um tirinho e o caminho é sempre a descer!". Valentes são aqueles que fazem Ponte de Lima -> Valença num dia. O que no meu ponto de vista não se justifica de modo nenhum. Fiquem em Rubiães que são super bem recebidos e os músculos, ligamentos e articulações agradecem! 

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Não saímos na primeira página, mas a nossa Sarocas ficou muito bem!! E o brazuca Filipe e a nossa amiga Claudia também estão muito bem. As palavras do Sr. Ovídio, das melhores pessoas que já conheci, são na mouche.

(De notar que quando chegámos ao café o jornal ainda não tinha chegado e explicámos a Sra. o porquê de tanta excitação - eu mais efusiva, que as outras tortugas são mais tranquilas - e mal o jornal chegou a Sra., contagiada por tanta excitação foi logo apressada procurar o JN. Portugal tem gente muito boa!)

Entre Rubiães e Valença

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E além de ser sempre a descer apanha-se um grande troço assim:

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A última fotografia no nosso tão belo Portugal:

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A cruzar a tão famosa ponte que une Portugal e Espanha:

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 Primeira foto em terra de (epa... não consigo sucumbir ao não uso do cliché) nuestros hermanos:

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Pronto. A partir daqui é 15/20 min no máximo até ao Albergue de Tui. Nós, no entanto, devemos ter levado uma boa meia hora.

- Estávamos quase mortas;

- Muito calor;

- Muita fome.

Chegámos. E com isto quinhentas mil novidades:

- JÁ NÃO SE FAZ A RECTA DE PORRIÑO

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- 6€ é quanto custa agora a estadia no albergue. É caso para dizer que eu nos meus 21 anos ainda sou do tempo em que cada um pagava aquilo que bem entendia...

Depois de pagos os 6€ era mais que tempo subirmos as escadas e tomarmos banho para depois esticarmos o lombo. Vale a pena ir lavar a roupa para o tanque que a vista é perfeita!

Corpo e roupa lavada a secar ao sol faltava agora ir atestar o depósito. A fome era tanta e a preguiça, mas era DOMINGO!! E ao domingo os spanish guys não trabalham. O Froiz estava fechado. Tínhamos que desencantar um restaurante que cumprisse os humildes requesitos de 3 jovens: Comida boa e barata. Ainda hesitámos e quase que nos alampávamos na esplanada do restaurante que fica no cimo da rua do albergue, mas algo não nos cativou. Fomos pedir ajuda ao Santíssimo e fomos na direcção da Catedral. Encontrámos uns banquinhos de madeira que nos encantaram e entrámos. MELHOR DECISÃO DAS NOSSAS VIDAS!! Menu del Peregrino baratíssimo, lugar super acolhedor e comida maravilhosa. Então não é que a Sra. veio cheia de pena dizer-nos que já não tinha ensaladilla e se nós não nos importávamos de substituir por "isto":

 

(vou tentar no próximo post, que está difícil continuar a publicar fotos...)

 

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-> (parte III)

por Mary P., em 06.09.14

Este é o dia que mais temia desde que me lembro ouvir falar sobre o Caminho de Santiago a partir do Porto. "Hoje" é o dia da Labruja!! A tão famosa subida da Labruja!! Aquela que de pé se dá com o nariz no chão. Aquela que se tem que subir de gatas. O troço, e estou a citar, mais árduo do Caminho!!

Na véspera, durante a espectacular conversa com o Sr. Ovídio, um dos voluntários do albergue de Ponte de Lima, alivei um bocado a tensão que estava a sentir. O Sr. Ovídio falou-nos no Caminho de São Salvador, onde trocava aquelas subidas por vinte Labrujas de marcha-atrás e mochila cheia de pedras. A Sara e a Sofia já não aguentavam-me ouvir perguntar às pessoas como é qie era a Labruja. 

O dia, como todos os outros os dias, começou cedo. Apesar de ter dormido pouco tinha sido um sono tranquilo. Estava bem disposta. É a Labruja que vamos ter que subir? Então venha ela!

Enquanto estava a arrumar a mochila nas escadas a Sophie diz-me: 

- Mary, nem imaginas quem é que está a fazer o Caminho connosco!

- Quem? Quem?

- O Johnny Depp!!

- O Johnny Depp?!

O meu coração estremeceu!! Ter o Johnny Depp a fazer o Caminho connosco era o melhor boost que poderia ter!!

Nos entretantos, "ele" passou. Sophie:

- Olha, Mary! É ele!!

 

Que desconsolo. Chamar-lhe Johnny Depp era uma falta de respeito para o meu menino, o the real one. Apenas os óculos e um bocadinho do cabelo é que se aproximavam do meu Johnny. Não cheguei a falar grande coisa com ele durante o Caminho, mas posso dizer que era um espanhol com uma sexy voz de rádio. Ficou para nós como o Pseudo-Beeeeeeeeeeeeem-Sublinhado-Johnny-Depp (sim, nós somos incríveis e damos nomes a toda a gente).

 

Depois daquele pseudo-boost de energia seguimos viagem. Mais uma vez não me lembro grande coisa do Caminho. Lembro-me de trilhos de pedra acompanhados de riachos. O verdadeiro Caminho de Santiago. Quando o Sol começou a nascer e desligámos as lanternas a cada subida que víamos ao longe pensávamos logo que aquela sim era a Labruja. Houve um corta-fogo que nos acompanhou durante imenso tempo e que me fez pensar uma série de vezes: Ó meu Deus, onde é que me vim meter? Mas como tinha dito a toda a gente que tinha até ao pôr-do-Sol para subir a Labruja era tranquilíssimo.

 

Todos nos diziam para recarregarmos energias no último café antes da Labruja. Fica ainda a uma boa meia hora, mas vale a pena tomar um café sentados na esplanada e conversar com o dono. O café chama-se Café Nunes. De rir, porque ao ler o carimbo li Café Mines. Nada a ver. Mas uma fresquinha até que sabia bem!

 

Até começarmos a entrar na Serra tivemos que subir e descer algum alcatrão. Há uma fonte de água numa rua coberta por videiras, que é perfeita para renovar a água do cantil.

 

Quando finalmente começámos a subir (eu ia à frente) ouvi:

- Então vocês de onde é que são?

Parei e à minha esquerda aproximou-se um pastor de cajado na mão seguido por uma Senhora Dona Vaca.

- Bom dia! Somos do Porto.

- Do Porto? Conheci lá uma sopeira... Maria Alice... Era boa, boa, boa.

[Nós risos e sem saber muito bem o que responder]
O Senhor J. lá se pôs a contar a sua história. Com pormenores e tudo. E eu à procura da melhor deixa para o homem nos deixar ir. Pediu para tirar uma fotografia comigo. Lá tive que lhe ensinar como é que se tiram fotografias à moda do Porto, que com a Maria Alice ele deve ter aprendido outras coisas.
(A Sophie foi corajosa e tirou uma fotografia com a vaca, que aqui aparece timidamente)
E depois da conversa engraçada com o Sr. J. e de feitas algumas piadas com a Maria Alice continuámos a subir e a subir até que deixámos de ter casas e terrenos trabalhados. Éramos só nós, terra batida, árvores e senhoras pedras (eu sei que são rochas, mas não me soa tão bem).
Subíamos um bocadinho... (É preciso ter muita atenção à sinalética, pois há uma curva à esquerda que só os mais atentos é que se apercebem da seta)
- Será que é isto a Labruja?
Mais um bocadinho...
- Não, não pode ter sido. 
- Deve ser mais daqui a um bocado.
Até que nos deparámos com esta imagem:
A inclinação da seta explica muito bem o cenário. Para os olhos mais atentos é fácil verem a minha traseira. 
- Ó Sara, bota lá o Bailando, que já chegou a hora!
Perdi a noção de tudo. Não faço ideia quanto tempo demorámos a subi-la. Naquele momento só queria vencer a Labruja. Sabia que existia uma alternativa, mais plana, mais tranquila, mas não seria a mesma coisa. Cada uma foi ao seu ritmo. Sempre ao som do Bailando e lembro-me de cantar com emoção a parte de "Ya no puedo mas". Houve uma vez em que me agarrei a um troco em jeitos de "vai tudo a eito". Respirámos fundo mais ou menos a meio onde tem um cruzeiro. Deixámos lá a nossa marca:
Chegámos ao topo. Mas eu ainda não estava em mim. Será que tinha sido aquela a subida da Labruja ou teria sido apenas um cheirinho para o que aí vinha? Com a Sophie aprendi a não criar grandes expectativas. Mas também olhando à nossa volta pouco ou nada havia mais para subir. Levei para aí uns dez minutos a fazer cair a moeda de que FONIXXXXXXXXXXX!!! A LABRUJA 'TÁ FEITA, MENINAS!!!!!!! Começámos a descer. Altura de comermos a banana. Bananas incrivelmente verdes. As pragas que as minhas sócias me roeram. Até a mim me custou. Mas pelo Magnésio tudo se faz! O resto do caminho foi feito com ligeireza!! O ponto de referência é que a partir do momento que se vê uma farmácia estamos a quinze minutos do albergue. Sim, nós optámos por ficar em Rubiães e só no dia a seguir ir para Valença.
Quando chegámos já tinham chegado peregrinos. Tomámos banho. O que levou uma eternidade, visto que só há dois chuveiros. No entanto, as instalações são muito boas. Trata-se de uma escola primária que foi renovada. Tem cozinha, sala de estar e um alpendre com espreguiçadeiras. Depois do almoço fomos perguntar ao senhor do albergue sítios para encher o bandulho. A cinco minutos existe um restaurante com menu de peregrino. Fomos lá, mas os preços e a oferta não nos cativaram e fomos à procura de alternativas. ÚNICA alternativa encontrada: café/mercearia que fica mais abaixo.
Seguimos. 3 semi-inválidas (já mostro fotografia da minha nail) de havaianas às duas da tarde em plena estrada nacional a caminho do café que tem uma mercearia que fica logo a seguir à ponte. 1 km. ANDÁMOS MAIS 1 km!! Obrigada, Sr. do café/mercearia, pela sua eterna paciência! Demorámos uma eternidade, mas também fomos boas clientes! Comprámos mantimentos para o almoço, jantar e pequeno-almoço.
Agora que tínhamos farnel a motivação para regressarmos ao albergue já era outra! O plano traçado era: a Sophie tratava do almoço enquanto eu tratava dos pés da Sara e depois enquanto a Sara arrumava a louça eu costurava mais um bocadinho os pés da Sophie. E assim foi!
Vejam só a delícia com que nos deliciámos ao almoço:
Não havia uma alminha que não passasse por nós e não tecesse comentários ao nosso manjar!
Depois de pés tratados e louça lavada foi hora da sesta e de pés ao alto. Foi difícil encontrar posição depois de ter esta visão:
(A Betadine e o Hirudoid fazem milagres. Se bem que agora está completamente preta. Mas antes isso, que sem unha!)
O jantar já foi mais leve, mas nem por isso menos divertido - sandes com barulho!! E depois da escrita em dia lá fomos dormir. Tratava-se da última noite em Portugal e no dia seguinte saía o jornal com a nossa entrevista (e a risota que foi quando vimos o jornal!)!
Próximo capítulo:
Bem que queria deixar aqui uma fotografia, mas não estou a conseguir, portantos, see you later aligator

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-> (parte II)

por Mary P., em 05.09.14

Ora vamos lá então escrever sobre a etapa mais fofinha, cutxi-cutxi do Caminho (NOT)

 

Para começar é a etapa mais comprida: 34 km. Todos a quem perguntávamos diziam-nos que era a mais bonita. A mim pareceu-me mais do mesmo. Alcatrão, terra batida, gravilha e milho. Cá para mim o alcatrão é que destoa, mas há troços que não dá de outra maneira. Por isso o que tem que ser, tem que ser!

Partimos por volta das 6h30, porque fiz questão de apenas almofadar os pés já cheios de linhas (os meus não!!) no dia da caminhada para evitar suores e ambientes propícios à reprodução de bactérias.

 

Aqui estávamos a atravessar a Ponte que une Barcelinhos a Barcelos.

No dia anterior, ainda quando estávamos a caminho fartámo-nos de ver caixas e caixinhas do McDonalds, o que despertou em nós uma grande vontade de atacar um Big Mac. Mas quando perguntámos aos locais de Barcelinhos se o McDonalds estava muito longe eles disseram-nos para não nos metermos nisso, que ainda era um bom pedaço,... Engolimos em seco. Não foi fácil. Mas, felizmente encontrámos o in_rio. A piada é que já no dia rumo a Ponte de Lima, ao sairmos da cidade, o que nos levou 10/15 minutos (se tanto) lá estava ele, o tão aclamado McDonalds! Mas foi uma boa decisão! Sem arrependimentos e de longe bastante mais saudável!

Andámos, andámos e andámooooooooooooooooooooooooos. Encontrámos a nossa rua:

 (A primeira de muitas, que a imaginação de vez em quando não dá para mais)

Confirmámos que no Caminho nada se perde, tudo se cria e se transforma

 

E é agora que entra mais um dado novo: as músicas do Caminho. A primeira a entrar para o Top 3 foi a do Jajão. "Era só jajão". Música que se encaixou perfeitamente quando descobrimos esta placa:

 

ATENÇÃO PEREGRINOS!!! ESTA PLACA É O MAIOR JAJÃO DO MUNDO E ARREDORES!! É 1 KM MUITO MAL MEDIDO!! Já antes tínhamos perguntado a umas senhoras que nos disseram que quando eram jovens e tinham pernas boas para andar em meia hora estavam em Ponte de Lima para ir às festas. Digam-me, minhas senhoras, qual é o vosso segredo!! Este foi o 1 km mais penoso, mais psicologicamente difícil de todo o caminho. Parámos aqui para beber água e parámos pela última vez no primeiro plátano que encontrámos. Olhámos para a nossa direita ao fundo para recuperar o fôlego. Um senhor que estava estacionado e que tinha a janela aberta riu-se da nossa triste figura e deu-nos algum alento. Caminhámos. Lá fomos em modo piloto automático atravessando a feirinha que estava montada na margem do Rio Lima à direita. Senti-me o verdadeiro burro de cargo que tem como banho a sua cenoura.

Nem quero imaginar a nossa figura rídicula no meio da ponte. De repente vimos um homem a tirar-nos fotografias. "A sério, senhor? Vamos ter chatices?". Dirigiu-se até nós e apresentou-se como jornalista do JN, que estava a escrever uma peça sobre o Caminho de Santiago. "Sara, fala tu!!!"

 

Prometeu-nos a primeira capa e a nossa melhor foto. Era simpático, é verdade, mas nenhuma das promessas foi cumprida!

O albergue é um edifício partilhado com o Museu do Brinquedo ao atravessar a ponte. Chegámos por volta das 14h, 14h30. E o albergue só abria às 15h/16h. Deu para beber uma água bem fresquinha e comer um geladex. Nos entretantos, na fila de espera eu, a Sophie e a Sara desintegramo-nos e eu fiquei para trás. Deu para ir conhecendo os peregrinos, que finalmente estávamos a conseguir reconhecer. 

O Sr. do Albergue é SIMPATIQUÍSSIMO. Aliás, todos os voluntários de Ponte de Lima são uns verdadeiros amores. Adorámos o albergue e as suas pessoas. Com excelentes condições, super bem localizado e organizado, pessoas espectaculares! 

Como estávamos a acomodar a meio da tarde decidmos ir tomar banho, tratar dos pés e só depois irmos ao Arroz de Sarrabulho.

Apanhei um dos sustos da minha vida! Para enganar a fome, que já era muita, comemos umas bolachas óptimas do Pingo Doce, as Apple Strudel, que têm uvas passas. A Maria Sofia, enquanto lhe rebentava mais uma bolha, queixou-se de mal-estar. Desvalorizei. Estávamos com fome, ter agulhas entre camadas da nossa pele não é a sensação mais agradável do mundo, o Arroz de Sarrabulho já estava a chamar por nós,... Mas a miúda de repente começou a ficar muito branca e desatou a correr para ir vomitar. Ficámos as duas sentadas nas escadas e pus-lhe o caixote do lixo à frente. Estava branca e com o pulso fraco. "Ó meu Deus, Sophie!" Vomitou. Vomitou e a minha veia de Enfermeira levou-me a observar o vómito. Tendo em conta que estamos a falar de conteúdo gástrico não posso contestar o cheiro. Mas havia uns raiozinhos vermelhos que estavam a mexer comigo. E a Sophie vomitou outra vez. A Sara veio ter connosco porque já estávamos a demorar muito tempo e eu subi para ir buscar toalhitas e um par de luvas. A Sophie já estava mais recomposta, mas continuava pálida e com o pulso fraco. E os raiozinhos vermelhos abundavam. Na minha cabeça tinha as palavras COÁGULOS, HEMORRAGIA INTERNA, 112, SOPHIE, FAZ ALGUMA COISA a negrito, sublinhado e a piscar. Tive que meter lá as mãos. Saquei os sacanas. Mas tinham um cheiro doce. Eram fios. Elas olhavam para mim a pensar "A Mary 'tá parva ou quê?". Confirmei. Eram uvas passas semi-digeridas. Fodasse. Fiquei bem mais leve. Só me lembro de olhar para a Sophie, virar-me para a parede e virem-me as lágrimas aos olhos. Quando é um dos nossos a estar na eminência do perigo é do caraças. Lá me gozaram. A Sophie lá se recompôs. Lá fomos à procura do melhor Arroz de Sarrabulho. Curiosamente nenhum restaurante tem menu de Peregrino que contemple o ex-libris da cidade. Ainda tentámos negociar, mas foi em vão. Já não sei quanto é que pagámos, mas sei que foi um preço justo. Eu não comi o arroz banhado de sangue, pedi antes uma tacinha com arroz branco. Estava uma delíciaaaaaaaaaaaaaaaaa. Acompanhado com os rojões, outra verdadeira obra de arte!

 

Como o albergue fechava às 22h foi jantar e ir tratar do pequeno-almoço (novamente chuladas). De notar que ao jantar tivemos o "prazer" de ouvir a conversa de um grupo de amigos na casa dos 40/50 anos todos eles licenciados, alguns mestres e dois ou três professores doutores no assunto: Pegrinação. A Professora Doutora dizia para toda Ponte de Lima ouvir: "Não me venham com coisas porque só vai a pé quem tem promessas para cumprir!" Ó Senhora, junte-se um dia a nós e vai perceber que a magia do Caminho pode muito bem passar pela conjugação de amizades de há séculos com amizades feitas durante o Caminho. Valeu porque o senhor que estava à minha frente era mesmo parecido com o vocalista dos Red Hot Chili Peppers, o Anthony Kiedis.

Tirámos mais uns retratos para a posterioridade:

 

Ponte de Lima é realmente muito bonita!

E a noite foi longa! Foi a primeira noite que conversei com os nossos queridos Salvatore & Valentina, um casal espectacular napolitano. Foi noite de massagens. E foi noite de véspera da Labruja!!!!!

 

Próximo episódio:

 

A caminho da Labruja...

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-> (parte I)

por Mary P., em 04.09.14

Se há coisa em que eu e os meus amigos somos bons é preparar coisas em cima do joelho. É uma lufa-lufa. Bradamos aos céus "Mas porque raio é que somos assim?". Mas quando nos fazemos ao caminho não teria tido a mesma piada se não tivesse sido assim! A verdade é que em três dias preparámos a nossa ida da Sé do Porto até Santiago. Duzentos e quarenta quilómetros. Dez dias a andar. 

Já tinha ido a Santiago três vezes, mas sempre partindo de Valença - cinco dias a andar tranquilamente. Nunca dez dias!!!!! "Mas, Mary, tu és escuteira!" É verdade. Fazer a mochila foi a verdadeira dor de cabeça. Levo muito a sério a história do "Mulher prevenida vale por duas!". Facto que as minhas costas não acham muita piada. Achava eu que levava o mínimo dos mínimos, mas já na primeira etapa estava bastante tentada em ir aos Correios e despachar metade da bagagem. (Em jeitos de Não percam o próximo episódio porque eu também não amanhã dedicarei um post à mochila).

 

O plano era:

 

Dia 19 - ponto de encontro em Miragaia Village na casa da avó da Sarocas;

Dia 20 - partida às 9h da manhã na Sé, chegada a Vilarinho;

Dia 21 - Vilarinho -> Barcelos;

Dia 22 - Barcelos -> Ponte de Lima;

Dia 23 - Ponte de Lima -> Rubiães;

Dia 24 - Rubiães -> Valença/Tui;

Dia 25 - Valença/Tui -> Redondela;

Dia 26 - Redondela -> Pontevedra;

Dia 27 - Pontevedra -> Caldas de Reis;

Dia 28 - Caldas de Reis -> Padrón;

Dia 29 - Padrón -> Santiago;

Dia 30 - DESBUNDATION

 

Dias alinhavados, mochilas idealizadas e feitas chegou dia 19 e às 21h45 a Sara e o Ricky (irmão da Sara e World Champion!!) estavam à minha espera. Ía-mos buscar a Sophie à Sra. da Hora para depois irmos todas juntas para casa da avó da Sara Maria. E aqui tive a minha primeira surpresa! A Rits veio ter connosco para fazer a primeira etapa!! De notar que a Rits e a Sophie são as minhas meninas. Crescemos juntas. E este foi o primeiro ano de há muitos em que ainda não tínhamos estado juntas. Sim, pelas contas, apenas estávamos três. Há quatro anos éramos dez. Mas desta vez as Pilgrins eram as SIS's - Sara, Mary P. e Sophie. Fomos tomar um café a uma feira que estava na Alfândega, demos uma voltinha pela Ribeira. Deu para matar saudades!! 

Começámos o primeiro dia da nossa longa jornada da melhor maneira com o pequeno-almoço preparado pela Avó da Sara. Que maravilha! 

Logo o início foi uma prova à nossa fibra. A casa da avó da Sara ficava a caminho do caminho, mas se era para começar na Sé, é para começar na Sé!

 

 A partir deste momento foi sempre a Rits a tirar as fotografias!

 

Foto oficial das que mais tarde se auto-intitularam Che Tortugas Telepáticas

 

Dirigimo-nos para a Rua Escura. Olhei em frente e contemplei o Rio Douro. Fotografei com os meus olhos aquele postal e pensei para mim mesma: "O Porto é lindoooooooooooooooooooooooo". Descemos e passámos pela Rua das Flores. Aqui é a primeira escolha que fazemos:

 

É aqui que tem que virar quem quer fazer o Caminho Português (não confundir com o da Costa!)

 

A primeira etapa foi particular. Todas conhecíamos bem as ruas pelas quais passámos. Todas, menos a Sara, passámos pelas nossas casas. Imensas pessoas conhecidas. Aliás tivemos três paragens de carros! Um deles foi a Rits, que depois de ter chegado a casa e dormido veio ter connosco em modo carro de apoio com águas bem fresquinhas e barras de cereais à janela. 

Chegámos a Vairão. Podíamos ter ficado em Vilarinho, que fica a 1/2 km depois (este post não tem nada de científico!), mas é privado e eu e a Sofia já lá tínhamos ido acantonar e sabíamos que se estava lá bem.

 

Vilarinho: É um albergue recente. Trata-se de um Mosteiro que foi recuperado por voluntários. Quartos de três/quatro camas. Senhores super simpáticos. Boas condições sanitárias. Bastante hospitaleiro. Amei as compotas que lá tinham. Pátio bastante agradável. Jantámos no café mais próximos. Comemos um prego-no-pão, que nada tinha de especial. Esse café tem também uma espécie de mercearia. Fomos chuladas, mas o nosso espírito de "Epa, isto está mesmo a acontecer!" não nos deixou desanimar. Deu para comprarmos aí um leite achocolatado e pão, que complementámos com as compotas óptimas deixadas na sala comum do albergue. Ainda não tínhamos feito nenhuma bolha. Foi dia de massagens e tratamentos de beleza.

 

Está no nosso ADN acordarmos cedo e começarmos a andar ainda de madrugada para garantirmos o lugar no albergue seguinte, podermos dormir uma sesta enquanto esperamos que abram o albergue e depois ganharmos o dia e podermos passear durante a tarde.

 

Aqui está a prova de como acordamos cedo (5h da manhã):

 O nosso nível cognitivo logo de manhã:

 

Levávamos a vantagem de a Sara já ter feito a primeira etapa completa e conhecer o caminho. Como o Sol ainda não tinha nascido fizemos um ligeiro desvio. Em vez de termos entrado no bosque, que está cheio de preservativos e pessoas completamente aleatórias, fomos pela estrada nacional. O ponto de referência que tínhamos era esta estátua:

 

Tínhamos voltado ao caminho e curiosamente tínhamos que continuar na estrada nacional! 

 

Passámos por Rates. Mas por ainda ser cedo estava tudo fechado e não deu para conhecer a dinâmica da vila de que todos falam tão bem.

Sinceramente já não me recordo bem. Aliás, não se de todo a pessoa ideal, porque já fiz três vezes o caminho a partir de Valença e há sempre troços que parece que estou a fazer pela primeira vez (memória de abécula!). 

Lembro-me que a meio do caminho parámos para ir à casa-de-banho e enquanto estava a tomar conta das mochilas um Sr. veio ter comigo e perguntou se podia pegar nas mochilas. Fiquei com cara de ponto de interrogação.

- Pegue lá Sr.! Quer levar esta? (apontei para a minha) É um favor que me faz!

- O que é que vocês levam aqui? Só esta é que está bem (a da Sara, que levava roupa ultraleve).

- Mas o Sr. já fez o caminho de Santiago? 

Entretanto, juntou-se a nós um amigo.

- Este já fez o caminho francês. Com ele fiz desde o Porto. Mas eu é mais hóteis. Não gosto de ficar em albergues. Férias são férias.

- E a Labruja faz-se bem? (O fantasma da Labruja acompanhou-me noite e dia, mas sobre isso falarei mais tarde).

- A Labruja? O segredo é parar no café que tem antes e beber umas "mines".

Já deu para tirar a pinta?

- E para Barcelos falta muito, Sr.?

- Uma horita! Fiquem antes em Barcelinhos, que assim é só atravessar a ponte e estão no centro da cidade.

- Vá, obrigada. Felicidades!

- Bom caminho!

 

E aceitámos a sugestão do Sr. Mas não foi uma hora. Aliás, passado uma hora perguntei a uma senhora quanto tempo faltava para Barcelinhos e a conversa foi assim:

- Bom dia, menina! Falta muito para Barcelinhos?
- Nããão! Daqui a meia hora, uma hora estão lá! Ali na Igreja os estrangeiros costumam virar, mas eles não sabem que se forem sempre em frente demoram menos dez minutos.

 

Deu para secar a roupa...

 

A Sra. referia-se ao caminho. Epa. Nós que da Rua das Flores fomos à Sé para voltar a passar outra vez fomos teimosas e não fizemos desvio nenhum. Mais uma hora em cima. Valeu a pena. Fomos as primeiras a chegar. Mais menos 27 km até Santiago! Albergue pequenino. Com um pátio decorado. Estávamos rodeadas pela Junta de Freguesia e pela a Associação do Rancho Folclórico. Fomos almoçar ao in_rio. Nota 20! Fomos fora de horas e tivemos oportunidade de comer lombelo assado com uma vista soberba!!!


De banho tomado, bandulho cheio, cadê o galo?

Segundo dia, primeiro dia de rebentamento de bolhas!

Somos miúdas muito tradicionais e se levamos à letra "Mulher prevenida vale por dois", mais ainda "Pequeno-almoço de rei, almoço de príncipe e jantar de pobre"

 

O Pingo Doce está a 5 minutos do albergue. Os bombeiros, que são mesmo ao lado do albergue, servem refeições completas a 5€, mas como tínhamos almoçado tão bem fomos para as sandes.

 

Amanhã: Barcelinhos -> Ponte de Lima

 

Ponte que liga Barcelinhos a Barcelos

 

To be continued ;)

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