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o valor somos nós que damos

por Mary P., em 11.02.15

O meu cérebro está a borbulhar, não no sentido literal obviamente. Borbulhar no sentido de ter quinhentas mil ideias para o post a iniciar este novo caminho.

 

Não me desliguei do blog. Todos os dias houve qualquer coisa, li, ouvi, reflecti sobre algo que pensei: "isto dava um bom tema para um post". Mas o mês de Janeiro foi simplesmente caótico - física e mentalmente. Já vivi 21 meses de Janeiro. Este, o de 2015, foi sem sombra de dúvida, o que mais custou a passar. Nunca a frase "parece que nunca mais acaba" fez tanto sentido.

 

Passo a explicar: entre os meses de Setembro e 1/2 Fevereiro estive no Hospital São João a estagiar - Medicina e Cirurgia. Cirurgia foi assim uma coisa de coração. Adorei, adorei, adorei. Adorei os orientadores, adorei a equipa de Enfermagem, adorei a equipa Médica e as auxiliares, adorei as instalações. ADOREI A MÍSTICA DO SERVIÇO. A última semana foi horrorosa. Não queria que os dias acabassem. Todos os dias me levantava cheia de vontade para ir para o Hospital e aprender mais "umas coisinhas". Todos os dias no final do turno olhava para trás (não necessariamente) e pensava "Epa ... é mesmo disto que eu gosto!". Aqui disseram-me: "Inês, tens tudo para ser uma óptima Enfermeira. Sabes, procuras saber mais, és organizada, sabes falar com os utentes. Não te percas." e deram-me o melhor elogio de sempre no dia da Avaliação Final (Enfermeiros Orientadores pelos quais eu tenho o maior respeito): "Um dia se for por hospital é por Enfermeiras como tu, Inês, que eu quero ser atendido." Tocou-me. Sorri apenas. Mas tocou-me, confesso. Simultaneamente desvalorizei porque sabia que tinha pela frente um estágio que é tido como duro. Poucos são os que gostam de Medicina. A verdade é que nos últimos tempos já me sentia completamente integrada no serviço. Porque tinham-me dado espaço para ser eu, a Inês. Tive oportunidade de me mostrar, o que fez com que me conhecesse melhor. Descobri/adquiri características em mim. Aproveitei a oportunidade e fiz por mostrar que tinha sido bem empregue. Mil obrigadas do fundo coração, Professor Alex e Professora Alice.

Já nos finais de 2014 mudei para Medicina. Desci um piso. Tudo diferente. Orientadoras, Equipa Multidisciplinar, instalações. Ambiente do serviço. Sofri horrores - tristemente é mesmo este o termo correcto. A partir daqui podia levar este parágrafo para vários temas: a bipolaridade, tudo o que um Orientador não deve ser/dizer/fazer, a frustração, a linha ténue entre o respeito pela autoridade e a desvalorização de hierarquias justificada, a autoridade só porque sim,... Abreviando, neste estágio a Inês na sua essência foi reprimida. Não teve espaço. Aliás, retiraram-lhe espaço. Logo na primeira semana lhe disseram que estava para a Enfermagem como o chocolate está para o azeite, ou seja, nada a ver. Não foi um murro no estômago. Foi um atropelamento por trinta camiões-tir repetido quinhentas e cinquenta mil vezes. Respondi: "Professora, acontece que no lugar do coração não tenho uma pedra." E a partir desse momento o meu caminho foi dificultado. 

 

Continuando no espírito de abreviar cheguei a casa e chorei. Chorei porque achava que tinha feito um bom trabalho. E uma senhora que não me conhecia de lado nenhum ao final de três dias me pergunta se eu tenho consciência de que estou no 3º ano de Enfermagem e não de Psicologia e que na sua ironia me mandou ir para casa rever a definição de Relação Terapêutica. Conceito este que me tinha sido valorizado pelos orientadores por quem merecem toda a minha consideração, porque eles sim me mostraram TODOS OS DIAS a imagem e a postura que eu quero adoptar - admirava-os e pensava para mim: "Quando for grande quero e vou ser assim." Tudo isto porque a minha utente começou a chorar quando lhe desejei bom fim-de-semana e lhe disse que só voltava na 3ªfeira. Acontece que era uma utente de 80 anos, de Amarante, solteira. Recebia a visita do sobrinho 2xsemana quando via as suas "vizinhas" sempre com gente aos pés da cama. Obviamente que lhe dei uma atenção especial. E se houve pessoa com quem eu senti que construí uma Relação Terapêutica - conceito que tanta gente se queixa sobre a sua ausência nos hospitais portugueses nos dias de hoje - foi com a D. V.. Fui quem lhe explicou a importância para a sua saúde fazer pesquisas de glicemia 4xdia - "Ó Enfermeira, já não chega as picas de ontem? Olhe bem para os meus dedos. Vá tratar a dali do lado!" -, era eu quem ela deixava dar banho e avaliar a tensão arterial. Foi a mim que a D. V., desconfiada de tudo e de todos,  respondeu às perguntas permitindo construir uma boa Avaliação Inicial. Foi comigo que a D. V. aprendeu a falar devagar e a ganhar confiança e à-vontade para ser ela mesma - uma senhora super amorosa, com a piada na ponta da língua e que toda a gente naquela Enfermaria era incapaz de sair sem lhe dar uma palavrinha - deixando cair a protecção de "eu não preciso de estar aqui. Deixe-me em paz. Eu quero é ficar sozinha. Ninguém me entende." 

 

Seguindo a minha essência e a minha aptidão inata de divagar e divagar demorei bastante tempo a decidir que título iria dar a este post. E penso que "o valor somos nós que damos" acenta que nem uma luva. Porque se quando fui elogiada desvalorizei e fiz por não pensar muito no assunto, quando o meu carácter e aptidão - técnica e social - foram postos em causa levei a peito e deixei-me afectar. Muito. Agora que já passou se calhar tería desvalorizado completamente. Mas o que está feito, feito está. 

 

Com isto quero dizer que é importante, essencial mesmo, darmos ouvidos a quem percebe realmente sobre o assunto. E compartimentalizar. Guardar as informações em caixas, caixotes e caixinhas conforme a sua importância/veracidade usando em simultâneo um coador onde só passa aquilo que contribuirá realmente para o nosso desenvolvimento.

 

Termino este post com uma frase que eu gosto muito e que me toca particularmente acompanho-me todos os dias:

 

"Põe tudo o que és na mais pequena coisa que faças."

Ricardo Reis, meu querido e eterno Nando, Nandinho

 

Não te minimizes. Não te acanhes. Observa. Vê. Ouve. Escuta e retém. Valoriza e valoriza-te. Retoca. Entrega-te de coração.

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Aqui.

por Mary P., em 16.11.14

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar

 

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esta sou eu, I. Mary Poppins, neste momento. Que ninguém se meta à minha frente sff. Que eu descobri a minha vocação e ninguém conseguirá assombrar esta minha vontade de VIVER PARA SER FELIZ!

 

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recta final

por Mary P., em 16.07.14

 

Já foi a última semana a fazer manhãs. Já foi a última terça e quarta de tarde. Quase, quase a chegar à meta. De língua de fora, costas curvadas, mas com uma mochila bem mais cheia de conhecimentos e experiências do que quando comecei a jornada. E o sorriso? Esse ainda maior! VALEU!!

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Mudar. Já aqui escrevi sobre esta acção tão simples e tão complexa ao mesmo tempo (ver tag #onossoicebergestaaderreter, que ainda não sei como é que se fazem os links). Reflexão que termino com uma pergunta teórica: «Se uma das mais antigas comunidades de Pinguins Imperadores da Antárctida teve a ousadia de mudar de lar, aquele que “(…) será sempre o nosso lar.”, e de se adaptar à ideia de passarem a ser nómadas, porque não, eu, I., dotada de conhecimentos, não tenho a capacidade de encarar o processo de mudança? E porque não contagiar quem me rodeia com esta vontade de querer sempre mais em prol do bem comum?» (Leiam mesmo o livro. Palavra que vale a pena)

Mudei. Mudei de serviço. As saudades são muitas. Já escrevi e apaguei umas quantas vezes este post. Porque não quero entrar em detalhes. Porque não quero ser maçadora. Sucede-se que esta é mais uma prova ao meu perfil de projecto de Enfermeira. Tem sido uma batalha de Mary Idealista vs Mary Racionalista. Mas hoje ganhei o dia quando uma das minhas colegas me veio dizer que o Sr. A. perguntou onde é que estava a Enfermeira-que-tinha-herpes e lhe pediu para me dizer que tinha saudades minhas. Aquece ou não aquece o coração? O dia ficou ganho!

Mudar foi do caraças. Tem sido uma prova à minha força, ao meu carácter, ao meu tudo. Mas eu quero ser dos bons. Portanto, tenho que ultrapassar os meus limites e trabalhar para o bem-estar das minhas meninas!

 

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uma imagem vale mais do que mil palavras

por Mary P., em 16.06.14

 

 

já chega de mundial e futebol e cristiano e árbitros corruptos e lesionados e tristezaspor hoje. agora vou dedicar-me aos livros e às demências e às escalas e às avaliações iniciais e aos estudos de caso, que amanhã só conto comigo para me safar.

 

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a fervilhar

por Mary P., em 16.06.14

Isto de sofrer antecipadamente não dá com nada! Amanhã, hoje é dia de partidazo e véspera de avaliação. A juntar ao caldinho: este calor infernal que me tira do sério.

Esta semana que acabou foi mesmo daquelas em que é difícil parar 3 segundos para respirar. Mas dá pica ter semanas assim. Dias em que acordar às 6h30 é um martírio. Que sair da cama é o maior erro. Que apanhar logo pessoas conhecidas às 7h da manhã no autocarro cheias de energia para ter uma boa conversa não dá com nada. Mas depois ... quando se chega ao local de trabalho se sente que é mesmo disto que eu gosto! Quer-se dizer... da parte dos pensos, das injecções e do convívio. Porque, em como tudo na vida há coisas que se dispensam. Mas que se fazem! Estou a crescer como diz a minha Laurinha! 

Portugal, meu querido Portugal, dos alemães fazemos salsichas e tartes de maçã! Siga pra cima deles!

Venham mais semanas assim, mas com dias com 30 horas, por favor, para conseguir dormir 6 horinhas ^^

 

 

 

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de coração cheio

por Mary P., em 28.05.14

Segunda semana de lar. Cinco dias. Uns mais intensos que outros. Todos eles com pormenores. Muita coisa vista, sentida, ouvida e cheirada. Já vai dando para tirar a pinta a cada um dos intervenientes deste meu mundo novo. Se não esquecerei o primeiro dia quando pus a D. J. a arrotar por ter aspirado demasiado ar, e da conversa com a D. S., a minha perspineta, o dia de hoje ficará para sempre na minha memória. Sucede-se que fiquei com os homens (o serviço é dividido em homens e mulheres). Para meu alívio! Porque nós senhoras somos excelentes pessoas, mas também somos chatinhas umas com as outras!

E então sucede-se que depois das higienes feitas, da medicação dada e dos pequenos-almoços tomados estava na altura de fazermos os pensos. Nota: afinal os filmes de ficção científica não são assim tão ficção. Em cinco dias nunca vi um penso "chato"! São todos daqueles que dão "pica"! E se há coisa que me toca é quando os utentes nos dão verdadeiras lições de fisioanatomia e de tratamento de feridas. Muitos deles sabem explicar na perfeição o que têm. Depois veio O Momento. Aquele Momento. Havia uma intramuscular para dar.

- Quem quer dar? - perguntou a Enfermeira C.

Entreolhamo-nos e eu estava mortinha por dar. Ninguém se importou. Encontrámo-nos com o Sr. A. no seu quarto e cantei a técnica dos quadrantes. Era altura de pôr a mão na massa. Toca a aspirar o conteúdo. Primeira "cagada". Sim, esta é uma história de "cagadas", mas termina com uma grande lição. Não conhecia o medicamento e comecei a aspirar. Estava a fazer musculação! Viscoso, viscoso, viscoso. Ao tirar o ar "cagada" número dois. Com a pressão que fiz rejeitei um bocado. A excitação tinha-se tornado em nervosismo e em pensamentos de "Mary, esquece. Desiste. Podes gostar muito, mas não podes magoar o Sr. A. Admite que tens duas mãos esquerdas e que vais encontrar outra profissão para a qual tenhas realmente jeito." Agora tinha de encontrar o sítio perfeito para "picar". Coxa jeitosa, muita massa muscular. Tive realmente sorte com o Sr. A. E ia falando com o Sr. A.:

- Sr. A., devo-lhe dizer que vai ficar na minha memória para sempre! O Sr. vai ser a primeira pessoa a quem eu vou dar a primeira intramuscular.

E o Sr. A., muito simpático, ria-se para mim.

Vi e revi o sítio com a Enfermeira C., desinfectei. Tinha chegado a hora h. Espetei a agulha. Foi sem espinhas. O Sr. A. não tinha manifestado dor. Os meus níveis de confiança estavam a começar a subir. A "cagada" final foi mesmo no momento de injectar o medicamento. E que quase me fez atirar a toalha ao chão. Como o Sr. A. já estava de pé a algum tempo e estava a fazer força para se apoiar na beira da cama contraiu demasiado o músculo quando comecei a empurrar o êmbolo ... PUM! O líquido saiu todo. Foi tirar a agulha, pôr compressa, pressionar, sair do quarto e respirar fundo trinta e três vezes. (O Sr. A. estava sereno. Nada disse. Sempre sorridente.). A Enfermeira C. veio ter comigo e calmamente disse-me que era normal aquilo ter acontecido. Transmitiu-me tranquilidade e ao mesmo tempo deu-me confiança (nós que vemos nela a imagem de "durona", mas a verdade é que a Enfermeira C. é altamente!) e insistiu comigo para que desse novamente. Passaram-me mil e uma coisas pela cabeça. "Mas que raio de pseudo enfermeira sou eu que faz ricochete do medicamento com o músculo do utente? SEREI EU UMA CARNICEIRA??". Respirei fundo novamente e entrei no quarto. O Sr. A. continuava sereno. Pedi-lhe desculpa e perguntei-lhe se podia repetir. Disse-me que sim com a cabeça. Fiz e desta vez não hesitei ao injectar. Correu bem. Pedi desculpa mais uma vez ao Sr. A.. Arrumei o material e fomos embora. Não foi fácil gerir aquele momento. Estava cheia de confiança no início e caiu-me tudo. As minhas amigas foram impecáveis comigo. Deram-me alento, força. Reforçaram a ideia de que eu não tinha tido culpa e que era normal acontecer. Mas não é fácil. E se eu tivesse partido a agulha? A dor e as complicações que teria provocado ao Sr. A.!

À hora de almoço fiquei com o Sr. D. e curiosamente o seu vizinho do lado era o Sr. A., que é independente, mas que tem alguma dificuldade ao falar. Cumprimentei-o. Agarrou-me no braço e pediu-me que chegasse a ele.

- A injecção não me doeu nada. Eu estou bem. - disse-me o Sr. A. e fechou a frase com ... um sorriso!

Foi mel para mim! Foi /&%$#"!=)(/ Sorri-lhe de volta e peguei na mão dele.

- Sr. A., muito obrigada! Não sabe como é bom ouvir essas palavras vindo de si.

Depois de ter acabado de almoçar veio ter comigo na sua cadeira. Baixei-me para facilitar o contacto visual e ele pegou na minha mão e deu-me um beijinho. 

Epa!!! Que Sr. tão amoroso! É que o Sr. A. é aquele Sr. que às 7h30 já está cá fora e é o único que me responde sempre ao meu "Bom dia". É o Sr. Simpático!O bom-coração. O que alinha sempre nas actividades. E depois do seu gesto e das suas palavras!!!! Depois de me ter sentido tão mal foi ele, o próprio utente, que me aconchegou a alma. Foi uma sensação do caraças! Foi um exemplo para a vida!!!! Foi um momento inolvidável!!! Cada vez mais gosto de viver Enfermagem!!!!

 

 

***

A única maneira de fazer um excelente trabalho é gostar daquilo que fazemos.

 

E eu apesar do meu trabalho até ao momento não ter sido impecável a verdade é que eu gosto genuinamente daquilo que faço e quero fazer mais e mais.

 

p.s.: Cheira-me que vou manter o anonimato por longos e determinados anos de modo a evitar que alguém que tenha lido esta extensão da minha alma se recuse a deixar-me dar uma intramuscular (tendo o pleno direito de tal!)

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Dia do Enfermeiro (e a festa continua!)

por Mary P., em 12.05.14

No ano passado tive a sorte (também trabalhei para tal) de ir com a minha mãe a Londres. A minha eterna cidade! A que conjuga o clássico com o contemporâneo, modernismo e tantos outros modos de estar na vida. Já lá tinha ido três vezes, mas desta vez ia ser diferente. A minha mãe deu-me total liberdade para fazer o roteiro. A sua única exigência foi ir ao Harrods (ai mãe, mãe,...). Numa das minhas excursões à Fnac em pleno Verão descobri um guia turístico barato baratinho e com um mega mapa de Londres. Fiz grande negócio! A vontade era tanta de querer ir logo que não resisti e fui para a esplanada. Saquei o meu caderno e abri o mapa. Apelei ao meu sentido de orientação e comecei a visualizar as ruas. Qual não foi o meu espanto quando vi a indicação Florence Nightingale's Museum. E era só atravessar a Westminster Bridge! Ou seja, nem a cinco minutos do Big Ben! Mal cheguei a casa fui logo ao site. O museu existia mesmo e era um anexo do St. Thomas'Hospital!! 

A minha mãe não foi excepção à regra: "esperava outra coisa do Big Ben! Mas que é bonito é!" Lá tirámos as fotografias da praxe (eu tirei uma especial com o meu William imaginário a sairmos da Westminster Abbey) e tivemos a sorte de encontrar um polícia super simpático que não se rogou a tirar uma fotografia com duas belas jovens. Mas o que eu queria mesmo, mesmo era atravessar aquela ponte. A minha mãe lá foi atrás de mim. O googlemaps não me enganou! Não se trata de um museu vistoso, mas quem quiser encontra-lo consegue facilmente.

 

Primeiro foi a minha cara de parva perante o St. Thomas' Hospital

 

 

Depois foi a emoção de saber que estava quase quase a ver a lamparina da Florence que tantas histórias conta!

 

O busto da Florence logo na entrada (aguenta coração!)

 

Tivemos a sorte ou o azar de ao entrarmos estar uma escola a fazer a visita. O museu é um círculo com vários corredores e eles estavam no centro a ouvir o que a "Florence" (actriz) lhes tinha para contar. De vez em quando lá ia ouvindo e ainda me ri com as caras que os putos faziam quando a "Florence" falou de peripécias vividas durante a guerra. O museu conta-nos como surgiu a arte da Enfermagem e mostra-nos a sua evolução até ao dia de hoje. É pequenino, o que o torna familiar. E dá-nos a oportunidade de ver alguns dos pertences da Florence (atentem nos resumos de anatomia!). Aqui ficam algumas fotografias:

 

 

 

 

 

 

Completamentente obsoleto nos dias de hoje. Prova de que nada é certo. Há que apostar continuamente no conhecimento.

O puto nem parece lá muito queixoso! 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ainda bem que as batas acompanharam a evolução dos tempos (!!)

 

 

 

 

 

Também conta a história da construção do St. Thomas' Hospital, que teve o dedo (a mão, o braço, o tronco,... e a persistência da Florence)

 

"A caixa das medicinas". A balança é tão amorosa!

 

 

 

 

E o tão aguardado momento!!

 

Confesso que estava à espera que fôsse a típica lamparina. Mas só de pensar no que esta já viu, já viveu ... ao lado tem uma televisão com a filmagem de uma mulher à noite a arrastar a lamparina de passos firmes. Tocou-me. Foi muuuuuuuuuuuuita emoção!!

 

 

 

VALEU!! E trouxe comigo uma caneta em forma de seringa, a minha caneta da sorte!! E tem-me valido bem!! 

VIVA À ENFERMAGEM!! VIVA, VIVA, VIVA!

 

 

 http://www.florence-nightingale.co.uk/

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12 de Maio, Dia do Enfermeiro

por Mary P., em 12.05.14

Desde pequena que sempre quis ser médica, quer-se dizer, a minha primeira recordação era o sonho de ser advogada-violinista. Mas não sei porquê desisti rapidamente dessa ideia. Sempre cultivei o sonho de me tornar médica. Ajudar os outros. Melhorar a vida de alguém. Salvar a vida de alguém, do filho de alguém, da mãe, do primo, do amigo de alguém. Depois veio Grey's Anatomy e o Youtube que me permitiu assistir a toracotomias e assim o sonho de ter o coração de uma pessoa a bater nas minhas mãos (ai que pica!!!!!!!). Até ao 9º ano fui uma excelente aluna. Estava super atenta nas aulas, fazia sempre os trabalhos de casa e na véspera, o meu primeiro grande erro, estudava afincadamente. Todos, inclusive professores, me diziam que iria entrar em medicina sem sombra de dúvidas. Veio o 10º ano, mudança de escola, turma nova, professores novos, exigências novas. Não me adaptei. Achava que conseguia mantendo a mesma atitude que tinha levado até ao momento. Mau pensamento! Péssimo aliás! Apanhei o comboio mais tarde sempre com a matemática (a minha querida e adorada matemática!) a manchar o meu registo. Nos entretantos, repeti (repeti, não, não reprovei) o 11º ano, o que implicou mudança de escola. Já aqui escrevi que foi estranho ver os meus amigos (amigos mesmo! turma realmente incrível!) a inscrever-se para a faculdade e eu a repetir o maldito 11º ano. Abreviando, que esta introdução já vai longa, mesmo depois da repetição as minhas notas não foram suficientes para garantir a minha entrada em Medicina. Ainda cheguei a pôr a hipótese de ir estudar para Espanha, mas não tive o apoio, o do €€€€, dos meus pais. A minha mãe insistia comigo:

- Mary, e por que não enfermagem? Ias gostar...

Sentia-me insultada com aquela abordagem!

- Ai mãe! Quero lá eu ser escrava dos médicos! Que bonito dar meia dúzia de picas! É que é mesmo isso que eu quero fazer para a minha vida!

E chegou o momento das candidaturas para a faculdade. "Vamos lá Mary. Tu és forte! Enfermagem lá terá de ser. Depois para o ano fazes novamente os exames e a história será outra. Já chega de secundário."

Enfermagem lá fui eu. 

1º Semestre: Anatomia, Comunicação em Enfermagem, Psicologia, Genética, Bioquímica e Socioantropologia (acho que não me esqueci de nenhuma). Fui de espírito aberto. Afinal de contas os meus pais tinham dado início a um verdadeiro investimento, não podia de maneira nenhuma mostrar-lhes que não valia a pena. Ah! E bioestatística!! 

Anatomia. A pura e dura. Nada de modelos de plásticos. Todas as quarta-feiras passadas no teatro anatómico. O formol passou a ser o nosso perfume. Foram, como já escrevi, aulas e estudos inesquecíveis! Ainda me lembro da segunda aula (a primeira foi coluna vertebral nada de especial). Na segunda ... piso -2 do São João. Uma sala revestida de azulejos brancos, muito, muito frio e um cheiro horrível. Meia dúzia de mesas e vários sistemas de roldanas. "Mas o que é que vai sair daqui?" pensávamos nós. Resposta à pergunta: cadáveres. Cadáveres sem pele e de mil novecentos e "troco-passo" religiosamente guardados em formol. "Quem me ajuda a passá-lo para a mesa?" perguntou descontraidamente a Professora S. Olhámos uns para os outros e ... A Mary inconsciente e estupidamente deu um passo à frente. Fiquei com os pés. Calcanhar de Aquiles - incrível! Unhas - nojentas! "Não penses, Mary." era o que dizia para mim própria. E daí para a frente foram muitos, muitos momentos. GRANDES AULAS MESMO! E Comunicação! Adorei! Adorei a Irmã P. e adorei a cadeira! As outras foram-se fazendo. Quer-se dizer ... Bioestatística ficou para este ano e ficou feita! E nos entretantos as pessoas iam-me perguntando como é que me estava a sentir, se estava a gostar,... "Não te preocupes, Mary, que para o ano entras em Medicina!" E eu ia pensando, pensando,... As aulas de anatomia permitiram-me logo no primeiro ano mover-me pelo hospital. Ia mais cedo, ficava depois para ir treinando. O que me permitiu ver muuuuuuuuuita coisa! E durante as aulas de comunicação fui agoçando o gostinho, despertando o bichinho que não sabia que tinha cá dentro. Na última aula, já em Janeiro tivemos a hipótese de podermos conversar durante meia horinha com um doente internado no nosso hospital. Foi há um ano e qualquer coisa e lembro-me tão beeeem. Na noite anterior não dormi. A subir na elevador as minhas pernas tremiam como varas verdes. E quando a Irmã P. foi apresentar-me à D. P. antes mesmo de entrar lembro-me de lhe ter agarrado o braço, mas o que disse já não sei. A D. P., espanhola residente em Portugal há muitos, muitos anos, tinha sido professora de português. Adorava, adora ler! Se fôsse a Mary-Voluntária sentava-se na cama e falava destravadamente com a D. P. Mas era a Mary-Estudante de Enfermagem que estava ali. Que tinha que cativar a D. P., criar empatia, ouvi-la, fazê-la sentir-se que ela é a minha primeira, segunda e terceira atenção. A conversa foi-se desenvolvendo e quando a Irmã me foi chamar saí de lá com a vontade de repetir aquele momento. Depois veio o 2º semestre. E com ele a Enfermagem I. O A-B-C da Enfermagem, mas que fez com que todas as minhas dúvidas e incertezas se dissipassem.

 

Hoje não me arrependo em nada da minha escolha. Estou muito, muito e muuuuuuuito feliz por ser uma aspirante a Enfermeira. Estou quase a iniciar o primeiro estágio. Será a minha primeira prova de fogo. 

 

Ouvir os meus professores e as suas histórias acelera ainda mais o meu desejo por vestir a farda e começar já a trabalhar. (Hoje não quero escrever, não me apetece, sobre a Enfermagem e o desemprego em Portugal). 

 

Às Mary's que pensam que os Enfermeiros são os empregados dos médicos ou que acham que os Enfermeiros dos Centros de Saúde são aqueles que foram encostados para canto (há muita gente que pensa assim, eu já pensei assim) ou ainda que ser Enfermeiro é dar "picas" - Não podiam estar mais enganados! Para aqueles que sentem que devem seguir a área da saúde e que querem contactar directamente com o doente, que querem fazer dele e do seu bem-estar a sua principal preocupação então escolham Enfermagem e serão felizes!

 

Não sei se um dia irei ter um bisturi na minha mão até porque a vida dá muitas voltas. Mas estou a ADORAR o meu caminho!

 

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